
Todas as manhãs, antes que o dia se ilumine, eles chegam.
Chega um e estuda o ambiente. Pousa na minha janela. Logo vejo o outro chegando. Parece que houve um convite ao companheiro: está tudo bem, pode vir, fomos lembrados.
E encontram frutas frescas e alpiste. Água fresca, que bebem e se banham. O andar é alto, assim como as copas das árvores centenárias que se avizinham.
Depois vem outro. E mais outro. Escuto pios que me soam como melodias. O que será que dizem uns aos outros?
É um cenário que me preenche de bem-estar.
São suaves, leves e delicados em seus movimentos. São ágeis. Se me percebem próxima, reagem rapidamente e levantam voo. Depois voltam e logo vejo vários passeando com calma pelo parapeito da janela.
Por vezes disputam o mesmo lugar. Um se assusta e voa. Logo retorna. Há os mais afoitos, os desconfiados, os que permanecem um pouco mais.
E a manhã vai acontecendo assim.
Eles não sabem que horas são. Não sabem o que é segunda-feira. Não têm agenda, metas, reputação a preservar. Não sabem de produtividade, algoritmos ou futuro profissional.
Há alimento, disputa, cuidado, espera, atenção, voo e retorno. E, ainda assim, parecem saber a hora da segunda rodada e a hora de voltar ao seu habitat.
Enquanto isso, do lado de cá da janela, acolhemos os pássaros como um anúncio de que o tempo do relógio já avança para mais um dia.
Nós já acordamos sabendo demais.
Nossos pensamentos rapidamente se enquadram nos compromissos e nas responsabilidades do dia e da vida.
Achamos que sabemos o que precisa ser feito, o que ficou para trás, quem respondeu, quem não respondeu, o que devemos alcançar, acompanhar, decidir e até o que a realidade nos trará.
Antes mesmo que o corpo reconheça a manhã, o pensamento já correu para algum lugar onde ainda não estamos.
Talvez por isso eu goste tanto de vê-los chegar.
Há naquele movimento uma espécie de chamada para um novo dia. Novas possibilidades. Também novos riscos. Mais um passo à frente.
Sem a garantia de que o dia acontecerá como planejamos ou idealizamos.
Não porque os pássaros tenham uma sabedoria romântica que nós deveríamos imitar. Basta observá-los para perceber que a vida deles também exige atenção, defesa, procura e sobrevivência.
Mas há algo em comum naquela presença inteira de cada pássaro diante do que existe agora, em nosso amanhecer.
Comer quando há alimento. Esperar quando é preciso. Disputar quando acontece. Voar diante do perigo. E, passada a ameaça, voltar.
Não apenas sobreviver. Viver.
Nós, humanos, conquistamos a extraordinária capacidade de antecipar o futuro, guardar o passado, imaginar mundos e transformar a realidade.
Talvez tenhamos apenas esquecido, algumas vezes, de voltar.
Voltar ao instante.
Ao corpo.
À janela.
Ao que está acontecendo enquanto a vida ainda não adquiriu importância.
Amanhã cedo eles chegarão novamente.
E provavelmente não saberão que me fizeram pensar em tudo isso.
Ainda bem.
Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica




