
Pouco depois da publicação de A armadilha do primeiro passo, recebi de uma amiga um comentário que trouxe de volta uma controvérsia que me desafiava desde que iniciei minhas pesquisas na teoria dos jogos.
Ela me contou que, praticamente a vida inteira, teve a experiência de dar o primeiro passo. Os resultados foram os mais variados. Às vezes sua iniciativa motivava o grupo e produzia cooperação. Outras vezes, ficava sobrecarregada, enquanto os demais usufruíam do resultado. Nem por isso se sentia prejudicada: o prazer de ver o objetivo alcançado podia compensar a falta de colaboração.
Mas houve ainda uma terceira reação, mais desconcertante. Algumas pessoas, ao perceberem que a iniciativa dava certo, reagiam com agressividade. Ressentiam-se de não terem sido os protagonistas da ação. O comentário terminava com o epitáfio que minha amiga gostaria de ter: “Eu não entendi nada!”
Respondi quase de imediato: “Oba! Ganhei material para mais um artigo: A libertação do primeiro passo”.
Depois da armadilha
No artigo anterior, questionei por que tantas vezes esperamos que outra pessoa tome a iniciativa. Num trabalho coletivo, quem dá o primeiro passo pode assumir um custo maior sem saber se os outros o acompanharão. Se todos raciocinarem assim, ninguém começa. É a armadilha.
A teoria dos jogos ajuda a compreender isso. Num equilíbrio de Nash, dadas as escolhas dos demais, nenhum jogador tem incentivo para mudar sozinho sua estratégia. O equilíbrio pode ser ruim para todos e permanecer estável.
Daí a pergunta que orientava o artigo anterior: por que parece racional esperar? O depoimento de minha amiga sugere outra: o que acontece quando alguém decide não esperar?
A resposta mais fácil seria dizer que algumas pessoas são mais corajosas, generosas ou empreendedoras. Mas isso apenas trocaria um problema por alguns adjetivos.
Qual é o jogo?
Há mais de vinte anos, quando fazia a pesquisa que se transformou em Dilema do prisioneiro: da teoria dos jogos à ética, encontrei no filósofo inglês Simon Blackburn (Ruling Passions, 1998) uma crítica incômoda à maneira como falamos de escolha racional.
A teoria dos jogos representa jogadores, alternativas, resultados e preferências. Em alguns jogos, existe uma estratégia dominante: qualquer que seja a escolha do outro, ela oferece o melhor resultado disponível.
Mas Blackburn percebeu uma dificuldade anterior: como o observador pode saber o que a própria pessoa considera um ‘melhor resultado’?
Ele distinguia a situação empírica — aquilo que observamos de fora — do jogo teórico que cada participante está efetivamente jogando. Duas pessoas podem estar diante das mesmas alternativas objetivas e atribuir valores inteiramente diferentes aos resultados.
Seu exemplo da chantagem é esclarecedor. Suponhamos que alguém possa evitar uma perda pagando ao chantagista. Se seu único interesse for preservar o dinheiro, ceder parece racional. Mas suponhamos que essa pessoa tenha sido educada a considerar intolerável submeter-se a uma chantagem. Ela pode preferir denunciar o chantagista, mesmo sabendo que sofrerá um prejuízo maior.
Mudou a situação? Não. Mudou aquilo que entra no cálculo.
O risco de ser otário
Isso nos leva ao dilema do prisioneiro. Se um jogador coopera e o outro não, o primeiro recebe o pior resultado. Na linguagem do jogo, ele fez o papel de otário: assumiu o custo enquanto o outro aproveitou a vantagem.
Mas Blackburn permite fazer uma pergunta desconfortável: otário para quem?
Se a matriz das utilidades (elemento que representa as preferências dos jogadores) registra apenas os ganhos que o observador considerou importantes, a resposta parece evidente. Mas o próprio jogador pode valorizar outras coisas.
Uma pessoa pode cooperar porque não suportaria aproveitar-se da cooperação alheia. Pode recusar uma chantagem mesmo pagando caro por isso. Pode começar um trabalho sabendo que outros podem se beneficiar sem colaborar.
Vista de fora, escolheu uma estratégia pior. Vista de dentro, talvez tenha feito exatamente aquilo que preferia fazer.
Isso não quer dizer que qualquer escolha seja boa ou que toda preferência se justifique por ser nossa. Preferências também se formam socialmente e podem entrar em conflito com valores que compartilhamos. Chamar uma ação de racional ou irracional exige saber mais sobre o jogador do que a matriz consegue nos contar.
Antes do primeiro passo
Nem sempre chegamos sozinhos a uma situação nova, dispostos a recalcular tudo. Trazemos hábitos, educação, desejos, compromissos e maneiras de reagir que se formaram na convivência com os outros.
‘Não cedo à chantagem’ pode ser uma delas. Não é preciso refazer as contas nem buscar a estratégia dominante: de algum modo, o critério de ação já vinha sendo formado.
Blackburn examina essa dinâmica: formamos compromissos e disposições antes de o jogo começar e os sustentamos mesmo que, para o observador, existam razões para fazer o contrário — por ética, educação, orgulho ou hábito.
O mesmo vale para a cooperação. Alguém pode cooperar não porque calculou que os outros farão o mesmo, nem por puro altruísmo, mas porque se tornou o tipo de pessoa que se sentiria mal fazendo o contrário.
Minha amiga parece ter passado boa parte da vida entrando nos jogos dessa maneira. Enquanto alguns perguntavam ‘quem vai começar?’, ela já estava começando.
A libertação
Começo a entender melhor o título que me ocorreu quase como uma brincadeira.
A libertação do primeiro passo não consiste em encontrar uma fórmula que garanta que os outros nos acompanharão, nem em garantir que o grupo funcione melhor. Eles podem acompanhar, ficar olhando ou aproveitar o resultado sem ajudar. Podem até, como viu minha amiga, ressentir-se de quem tomou a iniciativa.
A libertação está, pelo que consigo ver, em outra parte: em chegar à situação com alguma autonomia, já comprometido com uma maneira própria de agir, livre da dependência da decisão alheia.
Seria um jogador que se descola da matriz considerada padrão. Poderíamos chamá-lo de jogador dissidente, pois não aceita o jogo tal como o observador o desenhou. Ele não apenas pergunta qual é a melhor estratégia: sua maneira de agir revela que talvez esteja jogando outro jogo — o que, por si só, não torna sua escolha melhor.
Isso tem seu preço. Quem age assim corre o risco de trabalhar mais, pagar mais e fazer o papel de otário. Mas talvez exista também um preço para quem espera indefinidamente que os outros lhe deem razões para começar.
A armadilha do primeiro passo terminava com uma colega que, ao se reconhecer carona, dizia: “Agora vou pensar como posso ajudar”. Este artigo começou com outra pessoa. Uma que passou a vida sem esperar muito por essa resposta. E que, diante de reações imprevisíveis ou ressentidas, resumia sua perplexidade num bem-humorado epitáfio: “Eu não entendi nada!”.
Depois de Blackburn, desconfio que a perplexidade da minha amiga não seja um defeito de compreensão, mas a prova de que ela jogava um jogo diferente do observador apressado. Talvez, antes de perguntarmos qual é a melhor jogada, devêssemos descobrir que jogo estamos realmente jogando. E que jogador nos tornamos antes mesmo de a partida começar.
Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG



