No Concerto das Nações, manda quem pode. E o Brasil, ainda pode? (Luiz Alberto Cureau Júnior)

“Se você apanhar na escola, quando chegar em casa apanha de novo.” Ouvi muito essa frase e tenho [...]


“Se você apanhar na escola, quando chegar em casa apanha de novo.” Ouvi muito essa frase e tenho certeza de que muitos aqui também.

A frase pertence a outra geração. Não cabe discutir seus métodos, mas há nela uma mensagem que o Brasil parece ter esquecido, quem não aprende a se defender acaba dependendo dos outros para protegê-lo.

E soberania terceirizada tem outro nome, dependência. E a verdade dói, mas somos dependentes.

Durante décadas construímos uma perigosa ficção estratégica. Como não temos inimigos declarados, concluímos que não precisamos estar preparados para tê-los. Nossa tradição diplomática nos fez agir como se diplomacia substituísse poder. Como não há guerra no horizonte imediato, tratamos Defesa como assunto que pode esperar.

E continua esperando.

O mundo, porém, não esperou conosco.

Ucrânia, Oriente Médio e a disputa por recursos estratégicos demonstram algo antigo, quando interesses vitais entram em conflito, discursos cedem espaço ao poder.

E poder não se improvisa.

O Brasil possui território continental, Amazônia, Atlântico Sul, petróleo, água, alimentos, energia e minerais críticos. Temos muito para proteger e, paradoxalmente, ainda acreditamos que ninguém terá interesse suficiente para nos pressionar.

Isso não é estratégia. É torcida. E torcida deixo para meu Colorado, que também anda mal das pernas.

Nas Forças Armadas, décadas de orçamento instável deixaram projetos retardados, estoques limitados, baixa disponibilidade e modernizações postergadas, ampliando a distância entre missão constitucional e capacidade material.

Na Base Industrial de Defesa, a situação é ainda mais grave.

Indústria estratégica não sobrevive de patriotismo. Sem encomendas previsíveis, escala, financiamento, pesquisa e exportação, empresas desaparecem, engenheiros migram, fornecedores fecham e conhecimento tecnológico se perde.

Então chega a crise e surge a velha solução brasileira, comprar no exterior.

Comprar de quem?

Conflitos recentes mostraram que munições, defesa antiaérea, drones, componentes e peças tornam-se disputados justamente quando mais necessários. Países produtores priorizam seus estoques e aliados.

Quem deixou para comprar depois entra no fim da fila.

Talvez esse seja o significado estratégico daquela frase da infância, se o Brasil apanhar lá fora, poderá apanhar novamente em casa desta vez pela própria negligência ou incompetência.

Não precisamos militarizar o País. Precisamos parar de desarmá-lo por inércia.

Defesa exige Forças Armadas capazes, indústria nacional forte, estoques, tecnologia, mobilização e orçamento previsível. Não para procurar guerras, mas para impedir que alguém pense que pode nos enfrentar.

Porque países soberanos não escolhem apenas suas guerras. Dissuadem suas ameaças.

E isso tem preço.

Muito menor do que descobrir tarde demais que soberania sem capacidade de defendê-la era apenas uma palavra bonita na boca de políticos.

Luiz Alberto Cureau Júnior
General do Exército Brasileiro da reserva
Consultor Climático

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