
Chiquinho era um sujeito simpático do interior, frequentador assíduo dos botecos da vida e um grande conquistador do coração das donzelas solteiras da pequena cidade de Paranhos. Vestia-se bem e, por onde passava, o cheiro de almíscar ficava como rastro. Podia-se chegar à conclusão de que, onde o aroma exalava, era sinal de que ele estava por perto. Muito namorador, ainda não tinha conquistado o coração da mais bela entre todas: Esmeralda, a linda jovem, Miss Paranhos.
Fazia de tudo para ter aquele encanto ao seu lado. Até que ela correspondia, mas o pai dela era uma fera, não deixava nenhum gavião chegar muito perto.
Uma noite, Chiquinho organizou um grupo de amigos com violões, bandolins, violinos e até gente com caixinha de fósforo — uma verdadeira orquestra para cantar debaixo da janela de Esmeralda e sua família, com o objetivo de encantar e finalmente conquistar a sua amada.
À meia-noite, iniciaram a bela serenata. Afinados, se revezavam ao cantar, interpretando várias músicas de sucesso, mas nada das janelas se abrirem.
Já quase uma da madrugada, sem esperanças, Chiquinho começa a cantar “Noite Cheia de Estrelas”, de Evaldo Braga:
− ”Lua, manda tua luz prateada, despertar minha amada, quero matar meus desejos, sufocá-la com meus beijos…” (e nada da Esmeralda).
E, na continuação do canto, seguem os versos:
− “… Canto e a mulher que eu amo não me escuta…”
Repentinamente, uma luz se acende, interrompendo a cantoria. As janelas se abrem e de lá surge o pai de Esmeralda — sujeito barrigudo e de peito cabeludo, apenas de ceroula —, gritando:
− “Tá dormindo,”fedaputa“!
Éh, vida dura a de conquistador.
Aldeir Ferraz é Político e Escritor



