Tenho simpatia por gente doida (por Vera Helena Castanho)

“Tenho simpatia por gente doida, como eu sou do ramo, identifico os doidos logo.” [...]

“Tenho simpatia por gente doida, como eu sou do ramo, identifico os doidos logo.”

Essa frase, atribuída a Ariano Suassuna, me fez rir. E depois me fez pensar.

Quem será esse doido que Ariano diz ser? Talvez baste observar quem ainda se entusiasma com pouco. Quem ri alto sem pudor. Quem começa alguma coisa quando todos já recomendam parar.

Conhecemos alguém assim? Ou seremos nós?

Há uma pequena loucura que não nos tira da realidade, ao contrário, nos devolve a ela. À nossa realidade mais pura, aquela que autoriza, vez ou outra, deixar de lado o modo como aprendemos que “temos que ser” para sermos aceitos.

É a loucura de quem dialoga com o cachorro e ouve respostas precisas. De quem atravessa a cidade por um pãozinho de que gosta. De quem transforma a sala de casa numa pista de dança por alguns minutos.

Viver apenas de maneira sensata dá um trabalho enorme. Cansa. Talvez por isso eu goste tanto da frase de Ariano: ela nos concede uma licença. Não para perder o juízo, mas para não precisar demonstrá-lo o tempo inteiro.

Passamos boa parte da vida aprendendo a nos comportar. E ser razoável é importante. O problema é que, de tão razoáveis, ficamos previsíveis até para nós mesmos.

É aí que os “doidos” levam vantagem. Começam projetos improváveis. Gostam de pessoas que não constavam do plano. E, sobretudo, conservam a capacidade de se encantar.

Talvez seja isso que Ariano reconhecesse tão rápido: não a loucura como desrazão, mas como a fresta por onde a singularidade escapa. Há algo bonito em quem, depois de todas as adaptações que a vida exige, ainda guarda algo não domesticado. Uma curiosidade, uma mania, uma esperança que insiste em dizer: ainda não terminei.

E é aí, que uma vida encontra a si mesma. Não em acontecimentos extraordinários. Numa conversa, numa decisão tardia, na coragem de voltar a desejar alguma coisa. Pode acontecer numa quarta-feira qualquer.

Talvez devêssemos prestar mais atenção aos nossos pequenos desatinos. Nem todos precisam ser corrigidos.  Alguns só estão tentando nos lembrar quem somos.

Quem sabe sejamos, todos nós, apenas gente muito interessada na vida.

Talvez seja do ramo.

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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