A armadilha do primeiro passo (por Elson Pimentel)

Dias depois da publicação do artigo em Capa Brasil, ‘Da impotência ao ato’, uma colega me enviou uma [...]

Dias depois da publicação do artigo em Capa Brasil, ‘Da impotência ao ato’, uma colega me enviou uma mensagem curta: “Ao ler seu artigo me senti um carona. Agora vou pensar como posso ajudar”. Senti que aquela palavra a incomodou. E me provocou uma pergunta: por que quase todos nós já esperamos que outra pessoa dê o primeiro passo?

Esperamos que alguém organize a reunião, inicie um projeto ou simplesmente se ofereça para ajudar. Enquanto isso, permanecemos observando. Nem sempre por egoísmo. Muitas vezes porque parece mais prudente esperar.

O trabalho coletivo

Volto a me lembrar de David Hume, que percebeu isso com extraordinária clareza. Ele imaginou dois vizinhos que precisavam drenar um pântano comum. O benefício seria compartilhado, mas o esforço também. Se apenas um trabalhasse, faria um enorme sacrifício para obter um resultado pequeno. Melhor esperar.

O problema é que o segundo vizinho raciocina exatamente da mesma maneira. O pântano continua onde sempre esteve. Nesse caso, o problema não é o oportunismo. É a sensação de que uma contribuição isolada pouco altera o resultado.

O trânsito de todos os dias

Um leitor fez uma associação imediata com o trânsito. Observou que a sensação de agressividade cresce quando os motoqueiros são muitos. O número pode não ser a causa, mas muda a percepção de cada participante.

Diante de uma fila parada, o motoqueiro calcula que avançar alguns metros ou exceder a velocidade fará pouca diferença no conjunto. O ganho é privado e imediato; o custo, distribuído entre todos. Isoladamente, a infração parece irrelevante; somada a mil outras, produz um trânsito mais inseguro e imprevisível. É a degradação de um espaço comum — o pântano de Hume, agora sobre rodas.

O aplauso em um auditório

A mesma lógica aparece num cenário bem mais familiar. Ao final de uma apresentação, um auditório inteiro se levanta para aplaudir de pé. Depois de alguns minutos, as pernas doem, muita gente já gostaria de se sentar. Mesmo assim, quase ninguém toma a iniciativa.

Cada pessoa imagina que, se for a primeira a sentar-se, parecerá desinteressada ou mal-educada. Todos continuam em pé. Talvez a maioria preferisse exatamente o contrário.

Aqui surge um segundo tipo de carona. Não por oportunismo. Por coordenação. Cada pessoa espera que alguém dê o primeiro passo, que é, no fundo, o que quase todas desejam.

O caso do trabalho voluntário

Penso também na nossa Associação de Ex-alunos, a Aexa (*). Em qualquer associação acontece algo semelhante. Um pequeno grupo acaba realizando quase todo o trabalho, enquanto muitos associados gostariam de colaborar, mas hesitam. Receiam atrapalhar, ser desnecessários ou não ter a competência exigida.

Enquanto apenas um novo voluntário aparecer, provavelmente terminará recebendo ainda mais tarefas. O benefício coletivo só aparece quando mais pessoas entram no jogo. Aqui o carona já assume uma face distinta. Não é a irrelevância da contribuição, nem apenas a dificuldade de coordenação. É a insegurança diante do primeiro passo.

O carona oportunista

Existe, porém, um tipo bem diferente dos anteriores, em que nossa compreensão diminui sensivelmente. Pense num condomínio. Todos usufruem da portaria, da limpeza, da iluminação e da segurança. Esses benefícios existem porque os moradores dividem os custos de mantê-los. Quando alguém se recusa deliberadamente a pagar sua parte, mas continua desfrutando de tudo, dificilmente encontramos justificativas generosas para seu comportamento.

Nesse caso, o carona escolhe transferir para os outros o custo de um benefício que continua recebendo.

Há ainda um caso intermediário: o carona estratégico. Ele não é contra o projeto, apenas prefere esperar. Se der certo, entra depois; se fracassar, nada terá perdido. É um cálculo racional para reduzir riscos.

O carona estratégico faz as contas sozinho. Mas, e quando todos fizerem as mesmas contas?

O equilíbrio que é uma armadilha

Foi justamente para formalizar situações desse tipo que a teoria dos jogos, com o trabalho de John Nash, o matemático retratado no filme Uma Mente Brilhante (Howard, 2001), desenvolveu um dos seus conceitos mais importantes.

Nash percebeu que, quando cada pessoa decide pensando apenas na própria situação, o grupo inteiro pode terminar numa condição muito pior do que poderia alcançar. Se uma única pessoa resolver colaborar enquanto as demais continuam agindo da mesma maneira, ela acabará em situação pior. É justamente aí que nasce a armadilha do primeiro passo: esperar parece mais racional do que começar.

Quando todos chegam a essa conclusão, estabelece-se o equilíbrio de Nash: uma situação em que ninguém melhora sua posição mudando sozinho de estratégia. Na teoria dos jogos, a palavra ‘equilíbrio’ não é sinônimo de harmonia ou justiça; indica apenas estabilidade das escolhas. O problema é que, em certos jogos, ele nos prende num resultado ineficiente que todos prefeririam evitar. Consideradas as escolhas dos outros, permanecer parado parece mais seguro do que tentar sair.

Foi o que levou um amigo a comentar: “Esse ponto de equilíbrio deveria se chamar ponto de desequilíbrio”. Respondi quase sem pensar: “Prefiro chamá-lo de armadilha de Nash”.

Hoje acho que nós dois tínhamos razão. Na linguagem matemática, continua sendo um equilíbrio porque ninguém tem incentivo individual para se mover.Na experiência cotidiana, torna-se uma prisão. Ela não prende pela força. Prende porque o primeiro passo, quando dado sozinho, custa mais do que permanecer onde se está.

As fronteiras do julgamento

O antigo paradoxo do sorites ensina que não sabemos exatamente quando a adição de um único grão faz surgir um monte de areia. Isoladamente, um grão é nada; acumulados, alteram a paisagem. No trânsito, é o sorites que opera: uma infração isolada parece inofensiva, mas a soma de mil pequenas concessões cria o caos.

Quando olhamos para a atitude do carona, contudo, a dificuldade ganha outra dimensão. Não se trata apenas de contar ausências acumuladas, mas de interpretar intenções que não vemos. A rigor, não sabemos quando a hesitação legítima de quem teme atrapalhar se transforma no cálculo frio do oportunista. Entre a insegurança de quem adia o primeiro passo e o interesse de quem prefere explorar o esforço alheio, existe uma zona cinzenta que nenhuma contagem de grãos consegue medir.

Usamos a mesma palavra — carona — para atitudes moralmente distintas. Talvez o maior desafio da cooperação não seja identificar a ausência de ação, mas distinguir aquele que apenas espera a hora de agir daquele que deliberadamente transfere esse custo ao grupo.

Voltei então à mensagem da minha colega: “Ao ler seu artigo me senti um carona”. Gostei daquela frase porque ela trazia uma decisão: “Agora vou pensar como posso ajudar”. Talvez seja assim que algumas armadilhas começam a desaparecer.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

Ex-aluno do Colégio Estadual Central – BH/MG
(*) Diretor da Aexa – Associação dos Ex-Alunos e Amigos do CE

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