
Maravilha da engenharia e inventividade humana; organização superior a todas as outras; segurança no mais alto nível, inafundável; acomodações de alto luxo para a primeira classe, confortáveis para a segunda. Assim era descrito o famoso e trágico Titanic (omitia-se serem sofríveis as acomodações para os demais passageiros). Elogios e omissões similares são usados para descrever a atual civilização planetária, da qual já se disse ser a mais perfeita organização da sociedade, o cume da evolução humana, o fim da história! Nela viveremos até que, cumprindo destino inevitável salvo radicais e urgentes mudanças de rumo, ela soçobre, matando centenas de milhões. A extinção em massa já em curso atingindo crescentemente os humanos. Não têm faltado avisos sobre os riscos que corremos, alertas que são ignorados em nome de mais e mais lucro para alguns. Assim como quando da inaugural e última viagem do famoso navio, na qual uma sobrevivente ouviu o CEO da empresa proprietária do Titanic “aconselhar” o comandante a seguir velozmente de forma a quebrar o então vigente recorde da travessia atlântica, gerando maiores lucros.
Recentemente, o periódico belga De Morgen, em editorial, afirmou: “Imagine que os serviços de inteligência descubram que terroristas preparam atentado contra sua cidade e avisem às autoridades o que se deve fazer para evitar mortos e feridos, mas as autoridades nada fazem. É de certa forma o que ocorre em nível mundial; há [décadas] os cientistas avisavam quanto às destruições mortais que ora presenciamos em ondas: dezenas de milhares de evacuados; milhões de mortos a cada ano em razão de ondas de calor, comida envenenada e ar poluído, fumaça decorrente de florestas queimadas, campos secos ou inundados e colheitas perdidas. Enquanto isso, as mudanças climáticas parecem não perturbar os políticos! É preciso, afirma o periódico, politizar os incêndios!
No presente ano, a área queimada na França e Espanha equivale à quase a metade do território do nosso Distrito Federal, contra menos de 10% dela no ano anterior! No Brasil, o Pantanal já ardeu de forma dantesca e sua superfície inundada, compara à média histórica desde 1985, sofreu queda superior à 60%! Há quem afirme que, lá, o dano ambiental já se tornou irreversível e a Amazônia caminha na mesma direção! Aliás, não só a Amazônia, todo o planeta, e os políticos continuam aprovando novas explorações de combustíveis fósseis e evitando outras medidas necessárias e urgentes não para proteger a natureza, mas sim para proteger a vida! Claramente, o lucro privado de curto prazo se tornou mais importante que a sobrevivência coletiva.
Enquanto a imprensa e políticos continuam a chamar nosso sistema político de democracia, mas nossa realidade é muito mais uma plutocracia, cada vez mais escancarada, pois a maioria da população se manifesta favorável a medidas fortes contra as mudanças climáticas, o que é ignorado pelos dirigentes. No Brasil, parlamentares – de todos os níveis – abocanham dinheiro público para enriquecimento pessoal e para se reelegerem; nos EUA, o presidente da república lança serviço por assinatura, por US$100mil mensais, para que especuladores milionários tenham acesso antecipado às suas decisões e possam fazer suas apostas nos voláteis mercados.
A corrida pela acumulação de capital se tornou, cada vez mais claramente, similar à estória do flautista de Hamelin, só que desta feita, levando ao precipício não apenas ratos, mas todas as formas de vida.
Não têm faltado avisos, não de terroristas, mas de cientistas, nem evidências, das secas às enchentes, dos furacões às canículas, dos incêndios a rios secando, e os plutocratas seguem na ilusão de que, com muito dinheiro, eles poderão se safar do desastre coletivo, e que este poderá ser evitado com os avanços da ciência. Como acreditavam, os da primeira classe, que o Titanic era inafundável e que, na pior hipótese, haveria botes salva-vidas exclusivos para os endinheirados. Dantesco, perigoso, assassino e suicida autoengano!
Crenças semelhantes orientaram os ricos das muitas civilizações que sucumbiram em razão da destruição da parcela da biosfera da qual dependiam, processo denominado ecocídio. Hoje, com a civilização planetária, é toda e não apenas parte da biosfera que está sendo comprometida, e os plutocratas seguem lutando pelo estúpido privilégio de serem os últimos a morrer de fome, ou sede, ou queimados, ou afogados, ou das consequências do calor excessivo! Dantesca, perigosa, assassina e suicida ilusão a mover os dirigentes desta Civilização Titanic!
Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.



