Servidão voluntária (por Luis Giffoni)

Você educa seu filho para a vida ou para o trabalho? Para crescer emocional e intelectualmente ou [...]

Você educa seu filho para a vida ou para o trabalho? Para crescer emocional e intelectualmente ou para passar no vestibular? Mesmo que opte educá-lo para a vida e para crescer emocional e intelectualmente, você aceita que ele abrace uma profissão sem futuro ou com poucas perspectivas no mercado?

A maioria dos pais acaba orientando os filhos para escolher uma carreira que lhes garanta a melhor forma de sobreviver. Também para a maioria, isso significa conseguir um bom emprego depois de formado. Em outras palavras, pais e filhos (além do governo, em tese) investirão tempo e dinheiro no preparo de mão de obra qualificada para as empresas. Estas receberão na bandeja, sem custo algum, o candidato a futuro empregado, sem qualquer obrigação de contratá-lo. Examinarão os currículos olimpicamente, selecionarão os que melhor atendem à sua necessidade, descartarão os demais. Até reclamarão que a maioria dos candidatos não preenche os requisitos como deveriam. Dito de outra forma, os dezessete ou dezoito anos que filhos, pais e governos investiram na educação podem ser inúteis ou insuficientes para garantir um trabalho. Muitos diplomados amargam o desemprego por vários anos. Com a palavra os que buscam trabalho neste país eternamente em crise.

Essa rotina não é exclusiva do Brasil. Funciona assim em grande parte do mundo, sobretudo no Ocidente. Trata-se de uma servidão voluntária que se arrasta há séculos. Ninguém protesta, pelo menos entre nós. Ninguém estuda aqui alternativas mais justas, mais inteligentes, em que as corporações, as universidades e os alunos se integrem para atualizar currículos e maneiras de melhor dividir os ônus. As empresas são o sacrossanto altar em que as pessoas devem se imolar para garantir o sustento. Uma vez admitidas, também não existe obrigatoriedade de mantê-las no quadro de funcionários. A qualquer dificuldade, a degola rola. Ao redor dos quarenta anos, o funcionário com um salário condizente, mais alto, também corre o risco de ser substituído por alguém em início de carreira que ganhe menos. Depois dos cinquenta, em geral todos se tornam descartáveis.

A Coreia do Sul, na década de 1960 um país mais pobre que o Brasil, mostrou um caminho que merece ser considerado. Lá as empresas investem nas universidades e na qualidade do ensino. Financiam grandes bibliotecas, sistemas de IA e novos departamentos. Constroem prédios para abrigar pesquisa de ponta. Escolhem alunos com bom potencial e patrocinam seus estudos, mesmo no exterior, sem a obrigatoriedade de se tornarem empregados vitalícios – uma prática comum por lá, na China e no Japão até há pouco, hoje rejeitada pelos próprios empregados que desejam experimentar desafios em outras empresas. Nos Estados Unidos, antes do atual presidente, empresários bem-sucedidos costumavam carrear dinheiro para as universidades, a fim de melhorar a qualidade do ensino e baixar o custo da anuidade. Em nosso país, esse engajamento é residual.

A mudança do paradigma da servidão voluntária trará benefício às próprias empresas, pois aumentará a produtividade e formará mão de obra adequada às necessidades. Obviamente isso tem um custo. No entanto, como quase tudo na educação no Brasil, o paquidermismo prevalece em nosso país, estatal e privado. Aqui se deixa estar para ver como fica. O resultado é previsível: fica cada vez pior, cada vez mais restrito, cada vez mais oneroso criar vagas. E agora a IA aparece como outra ameaça, ceifando empregos – e ninguém sabe direito aonde ela nos poderá levar. Pais e filhos que têm um motivo a mais para pensar no ônus da servidão voluntária.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.amazon.com.br

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