
Em uma capital do Nordeste, por razões fortuitas, visitei o escritório de uma próspera construtora. Algo interessante a se ver? Para minha surpresa, sim. Em meio a pátios e escrivaninhas, estavam oito Ferraris, oito Porsches e oito Lamborghinis. Todos impecáveis e dignos de museus sérios.
Pensando nesta visita, esculpi duas ideias, algo relacionadas com esses carros tão cobiçados.
Como prefácio, rememoro meus dias de doutoramento, decifrando modelos matemáticos que explicariam o desenvolvimento econômico. Elegantíssimos e salpicados de floreios algébricos. Na época, me encantavam. Porém, diante de um conjunto de fábricas, minhas equações matemáticas nada me ajudam a explicar a sua dinâmica. Dadas as minhas limitações intelectuais, preciso de um mundo bem mais concreto para entender as coisas. Embarco nas Ferraris.
Esses magníficos autos não eram para o deleite dos donos da construtora. Atendendo ao topo do mercado imobiliário, eles planejam três edifícios, cada um ganhando o nome de uma das marcas. E como peças de decoração, uma vitrine com os oito exemplares da marca. Pelo que entendi, são apartamentos com preços de venda extravagantes.
Primeira lição. O Nordeste não é mais um valhacouto de senhores de engenho arcaicos. Hoje, cresce e viceja um capitalismo agressivo, criativo e bem vindo. Boa notícia.
A segunda lição é mais complicada. As tentativas de entender as causas do desenvolvimento econômico ainda não oferecem explicações definitivas. Ainda assim, algo sabemos.
Se tenho uma fábrica de pregos e compro mais máquinas, cresce minha produção. Se outros fazem o mesmo em suas fábricas – do que quer que sejam – aumenta a produção do país. Desenvolvimento econômico é mais ou menos isso.
Mas, é óbvio, se quero ter mais máquinas, tenho que pagar por elas. E de onde tiro o dinheiro? Tenho que economizar – ou seja, consumir menos – para poder arcar com seus custos. Ou endividar-me, para pagar depois. Como dizem os economistas, há que poupar, para poder investir.
Com meus dinheiros, sempre terei a opção de gastar mais para o meu conforto e satisfação ou deixar de consumir para comprar mais equipamentos. Sou soberano para determinar a minha “taxa de poupança”. Por definição, somando a de todos os brasileiros e empresas, temos a poupança da sociedade.
Claro, há outros fatores (instituições, taxa de juro, produtividade etc.). Mas simplificando, país que poupa muito pode crescer muito. É o caso da China que poupa acima de 40%.
Nos dias de hoje, o Brasil poupa da ordem de 17%. Que tolo poderia se surpreender com o nosso crescimento moroso?
Em boa medida, tudo pivota em torno das decisões de cada um. Gasto oito milhões em um Lamborghini? Ou recheio minha fábrica com dezenas de máquinas, tornando-me o “Rei do Prego”?
O instinto comercial dos donos da construtora sugere que há muitos que preferem o exibicionismo de morar onde há Porsches ou Ferraris expostos em vitrines. Consideram a opção melhor do que virar os “reis do queijo de coalho”.
Infelizmente para o país, há demasiadas gentes optando por apartamentos luxuosíssimos – ou o que seja – em vez de devotarem mais recursos para as suas empresas. Na opção entre consumo e investimento, preferem exibir o seu fausto para espectadores de uma elite rica – de quebra, afrontando as gentes de uma sociedade pobre.
Com efeito, esta opção pelo fausto é a marca de uma sociedade onde as cabeças são atrasadas. Subdesenvolvimento é isso. Em contraste, nas sociedades prósperas, poupar mais sempre foi o usual e o esperado.
Olhemos para o Norte da América. Seus abrasivos capitalistas nunca deixaram de exibir riquezas. As residências suntuosas dos Rockefellers e Vanderbilts viraram formosos museus. E há universidades com seus nomes, porque nelas despejaram dinheiro. Mas isso tudo não custou senão uma modesta fração do que ganhavam. Eram um nada, diante de seus poderosos impérios industriais.
Ao cabo de muitos anos, o sistema de mercado se revelou superior às outras alternativas. Mas seu sucesso depende dessa decisão crucial de abrir mão do consumo imediato e devotar amplos recursos aos investimentos. Dada a lógica do sistema, não há maneiras eficazes de impor quanto cada um irá poupar e investir. Essa é uma característica do capitalismo. Nele, não há como escapar da decisão soberana do que fazer com o que se ganha?
A economia brasileira, como um todo, padece desse atraso, gerado pela mentalidade de dar mais peso ao conforto imediato. A Ferrari é uma tentação irresistível.
Vale mencionar, o problema não é apenas desses empresários, mas da sociedade da qual fazem parte. Um exemplo. Durante a construção da minha casa, o gesseiro apareceu na obra, montado em uma bela moto. Mas estava de olho em uma BMW. Lembrei-me, então, das precaríssimas ferramentas que possuía. Cortava o drywall com um pedaço de lâmina de serra, mal aparafusada em um tosco pedaço de pau. Mutatis mutandis, equivalia à opção pelo Porsche.
Eis as minhas ilações, ao contemplar uma bela coleção de automóveis clássicos e extravagantes.
Claudio de Moura Castro é Ph.D. em Economia pela Universidade de Vanderbilt. Foi Professor Visitante em várias Universidades, como Chicago, Genebra, Borgonha, FGV, Brasília. Foi Presidente da CAPES. Autor, Prêmio Jabuti.



