Santelmo e suas transas (por Lindolfo Paoliello)

foi quando um grupo de colegas organizou uma excursão à Serra do Caparaó para conhecer o local da guerrilha.. [...]

Santelmo é aquele a quem se refere a incrível queixa da jovem doméstica, ao ser despedida pelos patrões:

– Dispois nóis é qui num presta: esses moço namora nóis, faiz filho em nóis, dispois fala qui nóis num é da classe deles.

A doméstica, coitada, saiu por este mundo afora e Santelmo permaneceu sob o regaço dos pais, mimado, festejado e azucrinando a vida das domésticas do quarteirão e adjacências.

No colégio, irrompeu certa vez disparado em um cavalo que encontrou nos arredores e foi introdutor daquele barbantinho cheiroso que era o terror dos professores. Havia uma escultura de mulher, em frente ao auditório, que a direção houve por bem retirar quando Santelmo decidiu utilizar-se dela para satirizar, diariamente, cada uma das professoras do tradicional educandário. E houve o episódio em que simulou o assassinato de um colega que compareceu devidamente equipado com uma bola de sangue sob a camisa, e exatamente quando o diretor passava… pum! Um tiro de 38, e o diretor é que acabou socorrido às pressas, era cardíaco.

Vamos depois encontra-lo na Faculdade, ao tempo em que estudante disputava com a polícia quem ocuparia primeiro a escola. Santelmo que tinha acabado de ler O Corcunda de Notre Dame, achou de aplicar o que lera: em dois dias o laboratório de Química foi literalmente atirado pela janela, através de pequenos frascos com as mais terríveis misturas. Um dia ele se entediou daquilo: foi quando um grupo de colegas organizou uma excursão à Serra do Caparaó para conhecer o local da guerrilha. Santelmo tratou de organizar uma “excursão à Gruta Metrópole”, arregimentou adeptos, encheram a escola de cartazes, deram avisos nas classes, movimentaram a imprensa. Na manhã do dia combinado, a cidade assistiu, incrédula, uma passeata de estudantes sem as faixas de costume e precedida por uma banda carnavalesca. A Gruta Metrópole foi ocupada por dois dias, e metade da turma foi curar o pileque no pronto socorro. Santelmo encerrou ali sua brevíssima fase engagée.

O tempo passou e nosso amigo, se não evoluiu, deixou que as coisas acontecessem com ele como querem os costumes que elas aconteçam: formou-se, virou funcionário público, casou-se com uma amiga da família, comprou um sítio para os lados de Furnas (mineiro, vocês sabem, adora água), enfim, Santelmo “assentou a cabeça”.

Há muitos anos não tinha notícias dele até que, um dia destes, um amigo contou-me que Santelmo foi vítima de um assalto. A coisa passou-se assim:

Ele voltava do trabalho, à luz do dia, quando parou em um sinal e dois sujeitos entraram pela porta da direita, revólver em punho, e mandaram-no seguir em frente. Pintaram o diabo, assaltaram duas ou três casas, sempre usando o carro e mantendo o Santelmo como refém.

Lá pelas tantas, já era noite, ordenaram-lhe que preenchesse um cheque e descontasse que o deixariam livre.

– Mas onde é que, pelo amor de Deus, vou descontar um cheque à uma hora destas?

– Problema seu. Olhe ali, por que não desconta naquele motel?

Santelmo preencheu o cheque e, seguido de perto por um dos assaltantes, deixou para assinar na guarita do motel, onde escreveu assim, no lugar da assinatura: “Estou sendo assaltado, me ajudem”.

A mulher que estava na guarita pegou o cheque e, na maior das calmas, deu-lhe o dinheiro. Voltaram para o carro, andaram alguns quilômetros e deixaram em paz o nosso amigo, que voltou disparado para o motel:

– Mas como é que vocês, em vez de chamarem a polícia, foram logo me pagando o cheque? Não viram o que eu escrevi na assinatura?

– Mas doutor Santelmo, o senhor é de casa, está sempre aqui conosco… o senhor acha que nós algum dia vamos conferir sua assinatura?

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.

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