“São outros quinhentos” (por Carlos Mota Coelho)

Tio Júlio Senna estava caduco e rico, após rasgar estradas pelos vales do Jequi e Mucuri e gostava de se [...]

Tio Júlio Senna estava caduco e rico, após rasgar estradas pelos vales do Jequi e Mucuri e gostava de se sentar, vestido num puído terno marrom, no passeio de nossa casa, com os bolsos estufados de notas de quinhentos cruzeiros, e batucava ritmicamente a sua bengala no pedrado da calçada, assobiando sempre a mesma música.

E foi de seu bem forrado bolso que caiu uma pelega de quinhentos cruzeiros, ela voou e alguém a pegou e suspeitas foram levantadas a esmo, sobretudo em João de Deus, dedurado por Geraldo de Virgínia.

E os dois truvaram numa briga de facas em frente à nossa loja, onde uma multidão acabara de ouvir JK inaugurando Brasília naquele 21 de abril de 1960.

Não houve ferimentos, pois a turma do “deixa disso” não deixou e eles se limitaram a um risca faca com faíscas incandescendo sobre aquele velho calçamento de cristais de rocha, ainda hoje coberto por bloquetes de cimento.

Os dois foram chamados à presença do Capitão Andorinha, Delegado de Minas Novas e ele, numa revista nos bolsos de João de Deus, achou uma nota semelhante à que havia sumido e a João perguntou:

– “Estes quinhentos são do Velho Júlio Senna?”

– “Não, sô delegado, SÃO OUTROS QUINHENTOS!”

E, segundo os fanadeiros, a expressão conhecida por todo o Brasil se incorporou ao Português naquele dia em Minas Novas!

Carlos Mota Coelho é Escritor e Membro da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha. Foi Deputado Federal e Procurador Federal. Autor de vários livros.

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