Leão XIV pós Leão XIII (por Vera Helena Castanho)

Leio, ao raiar do dia, os artigos do The News que chegam ao meu e-mail trazendo notícias, movimentos e [...]

Leio, ao raiar do dia, os artigos do The News que chegam ao meu e-mail trazendo notícias, movimentos e inquietações do mundo contemporâneo.

E não tive dúvidas: ali estava o tema da minha próxima reflexão para o #Capa Brasil.

Talvez porque minha mente funcione assim. É no mundo à minha volta, nos sinais do tempo, nas mudanças humanas, nas tensões silenciosas da sociedade, que encontro inspiração para continuar pensando, elaborando e construindo a própria vida.

Há algo profundamente simbólico no fato do Vaticano ter decidido se manifestar sobre inteligência artificial neste momento da história.

Não para condenar a tecnologia. Nem para sustentar discursos alarmistas. Mas para lembrar algo ainda mais importante: o risco de uma humanidade que, silenciosamente, começa a perder contato consigo mesma.

Não deixa de ser significativo que Leão XIV tenha escolhido justamente este tema para uma de suas primeiras grandes manifestações públicas.

Há mais de um século, Leão XIII marcou a história ao publicar a encíclica Rerum Novarum, em meio às profundas transformações provocadas pela Revolução Industrial. Naquele momento, a preocupação da Igreja voltava-se às condições humanas diante de um mundo que passava a reorganizar trabalho, produção, poder, relações sociais e culturais, em velocidade inédita.

Hoje, em outro momento mais fortemente histórico, o novo Papa parece recolocar a mesma pergunta em outro cenário civilizatório: o que acontecerá com o humano diante de uma nova revolução construída pela própria inteligência que criou?

Mudam as máquinas. Mudam as tecnologias. Mas talvez a questão central continue sendo a mesma: como preservar a dignidade humana em tempos de enorme aceleração histórica.

A nova encíclica traz uma preocupação que ultrapassa o universo religioso. Ela toca em um ponto delicado do nosso tempo: o avanço de uma lógica excessivamente produtivista, acelerada e operacional, capaz de transformar seres humanos em meras engrenagens de desempenho.

A grande questão contemporânea não é certamente apenas o quanto a inteligência artificial irá evoluir. Mas o que acontecerá com a inteligência humana ao longo desse processo.

Aquela que questiona.
Que elabora.
Que sustenta conflitos internos.
Que amadurece.
Que produz consciência.

Não deixa de ser significativo que, ao lado do Papa, esteja Christopher Olah, um dos nomes ligados ao desenvolvimento da inteligência artificial e associado à Anthropic, empresa que vem defendendo modelos mais responsáveis, envolvidos no ritmo em que as reflexões humanas desse novo tempo exigem, como temos acompanhado as suas manifestações públicas.

A cada dia mais profundamente temos entendido que a discussão mais séria sobre tecnologia nunca tenha sido apenas tecnológica.

Ela é humana.

E talvez seja exatamente por isso que tantas pessoas hoje, mesmo altamente produtivas, eficientes e conectadas, experimentem uma espécie silenciosa de esvaziamento interno.

Funcionam.
Entregam.
Respondem.
Produzem.

Mas já não conseguem mais se escutar.

Preservar o humano talvez venha se tornando uma das tarefas mais importantes e mais difíceis do nosso tempo.

Avante!

Vera Helena Castanho é Psicoterapeuta Base Analítica

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