O ninho do futuro (por Eduardo Fernandez Silva)

Onde se gesta o futuro? Na IA? Na viagem interplanetária? Num PIB muitas vezes maior? Mais provável [...]

Onde se gesta o futuro? Na IA? Na viagem interplanetária? Num PIB muitas vezes maior? Mais provável que seja um pouco de cada uma dessas, e muito de outras variáveis. Quais?

Como o futuro depende das decisões hoje, a resposta é polêmica e cheia de incertezas. Se o caminho A parece me favorecer, defenderei esta senda. Se não, apoiarei outra. Uma coisa é clara: um futuro, um “bom” futuro, dependerá de parar de destruir a biosfera, que é o galho sobre o qual se assenta a vida, inclusive humana. Nessa transformação pacificadora, um ponto essencial será melhorar o uso da água, decorrente de melhor entendê-la: a hidrosofia, que complementa e ultrapassa a hidrologia, ajudará.

A hidrosofia é muito, muito maior que o aproveitamento da água da chuva, mas certamente inclui tal prática. Não sei se há outros países onde a arquitetura, o urbanismo e a legislação incorporaram o princípio da coleta, tratamento e uso da água da chuva como faz hoje a China. Lá, o icônico e admirado estádio nacional “Ninho dos Pássaros”, inaugurado para as Olimpíadas, foi construído de forma a aproveitar a água da chuva, que atende a 50% das suas necessidades hídricas. No lindo Parque das Águas a coleta – e tratamento – das águas pluviais alcança 10.000 toneladas anuais! Em Pequim, 30% da demanda por água já é atendida por água de reuso.

A China, ainda hoje grande poluidor, há anos se transforma e trilha caminho ambientalmente amigável; já lidera em vários setores ligados à redução de danos e restauração do ambiente natural, inclusive ampliou sua área florestada. Foi em 1995 a primeira reunião oficial, em tempos modernos, sobre o reuso da água da chuva. Logo a seguir, o conceito de “cidades esponja” tornou-se central. Em 2014 a “colheita de água da chuva” foi definida como fundamental no planejamento nacional chinês, e espera-se reutilizar 70% da chuva em área urbana antes de 2030! Em 2023, a indústria chinesa do reaproveitamento da água pluvial gerou um PIB de quatorze bilhões de libras esterlinas!

O “Ninho dos Pássaros”, pois, é um cartão postal a sinalizar o rumo nacionalmente desejado e sistematicamente perseguido, desde as vilas às metrópoles: transformar um país altamente poluidor e com enorme população paupérrima num espaço de rapidíssima redução da pobreza e firme restauração ambiental.  Nesse sentido, a China é sim o ninho do bom futuro!

A potência asiática, certamente, tem um sistema político diferente do nosso. Lá, a gestão do país, a partir das menores vilas, é feita por cerca de dois milhões de pessoas eleitas por voto direto; aqui, não chega a 70 mil a totalidade dos eleitos!

Em 1988, Brasil e China assinaram um acordo de cooperação espacial. Então, o PIB per capita chinês era 11% do brasileiro; em 2020, superava o nosso em 52%! No ano do acordo espacial, os dois países estavam próximos em domínio da tecnologia espacial; a China pousou robôs na Lua em 2013 e o Brasil sequer tornou operacional a base de Alcântara! A redução da pobreza, lá, superou em muito o que a nossa organização política conseguiu.

Sobre os sistemas políticos, vale lembrar o chinês Deng Xiao Ping: “Não importa a cor do gato; importante é pegar o rato!” Aqui, parece que os ratos pegaram os poderes políticos!

Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.

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