
Tem coisas que você não coloca nem na lista dos sonhos impossíveis. Não porque você não
acredita em si mesma. Mas porque o cenário é tão específico, tão improvável, tão fora do mapa
mental de uma menina criada em São Paulo que o pensamento simplesmente não chega lá.
Pois então. A Ruth Van Reken leu o meu livro. E escreveu um endosso pra ele.
Eu vou precisar que você entenda o peso dessa frase antes de continuar.
CONTEXTO NECESSÁRIO: QUEM SOU EU NISSO TUDO
Eu, Jéssica Gabrielzyk, sou brasileira, de São Paulo. Moro na Suíça. Escrevi um livro,
“Parenting Unpacked: Parenting Through the Loss of Self” sobre o que acontece com os pais
quando a vida muda de um jeito que eles não tinham palavras pra descrever. Não tenho
formação acadêmica na área intercultural. Não tenho décadas de pesquisa publicada. Tenho
experiência. Tenho honestidade. E aparentemente tenho um livro que chegou nas mãos certas.
Eu nunca — e eu digo nunca com total convicção — imaginei que o nome Ruth Van Reken
estaria na capa do que eu escrevi. Esse pensamento não existia. Não era nem um sonho
distante. Era simplesmente fora do universo conhecido.
MAS QUEM É RUTH E. VAN REKEN?
Ruth Van Reken é coautora do livro Third Culture Kids: Growing Up Among Worlds, conhecido
no campo intercultural simplesmente como a Bíblia dos TCKs. O livro chegou à quarta edição.
Ela trabalha com famílias globalmente móveis, educadores e pesquisadores há mais de trinta e
cinco anos. Em 1998, cofundou o Families in Global Transition.
Ela não é uma pessoa à margem do campo. Ela construiu o campo. É a pessoa que deu
vocabulário a uma experiência que milhões de famílias viviam sem conseguir nomear. E foi
exatamente essa pessoa que leu o meu livro.
Para quem não está familiarizado com o mundo dos livros e da pesquisa intercultural: imagina
que você escreveu um livro sobre futebol e o Pelé te liga pra dizer que leu e achou bom. É mais
ou menos esse nível. Menos o futebol, mais a experiência de criar filhos fora do país de origem.
Mas a energia é a mesma.
“Muito foi escrito sobre o impacto da mobilidade global nas crianças. Jessica nos convida a
olhar mais fundo para o que essa experiência significa para os adultos que as criaram. Ao
compartilhar sua história dos sentimentos e reações inesperados que vieram com múltiplas
mudanças interculturais, muitos que viveram um estilo de vida semelhante vão se ver varridos
por essa história ao perceber que ela também é a deles. Eu me vi. Não estamos sozinhos.
Simplesmente não tínhamos palavras pra descrever isso antes.” Ela escreveu.
Eu não queria escrever mais um livro sobre expatriados. Queria nomear algo que estava
acontecendo sem nome. E a pessoa que passou trinta e cinco anos nomeando experiências
interculturais disse que eu fiz isso pelos pais. Eu não tenho palavras. O que é irônico, dado o
livro.
Cresci em São Paulo. Vim pra Suíça. Aprendi que o mundo é muito maior do que qualquer
mapa que eu tinha na cabeça quando tinha vinte anos. Escrevi sobre isso. Escrevi sobre o que
acontece quando a vida muda e você ainda está tentando entender quem você é do outro lado.
E em nenhum momento — em nenhuma versão desse sonho — eu tinha imaginado que a Ruth
Van Reken estaria nessa história. Ela estava na estante. Ela estava no currículo de quem
pesquisa o campo. Ela não estava no meu livro.
Até estar.
Jessica Gabrielzyk é autora brasileira, nascida em São Paulo e radicada na Suíça. Escreve
sobre maternidade, migração e identidade. Membro da SiETAR — Society for Intercultural
Education, Training and Research —, é autora de Maternity Abroad: Becoming a Mother in a
Foreign Land e do próximo Parenting Unpacked: Parenting Through the Loss of Self, com
lançamento em junho de 2026.



