Viver em outro idioma: o que a imigração faz com quem você é (por Dani Balieiro Amorim)

Existe um sofrimento que não cabe em post de rede social. Não é aquele da saudade declarada, da [...]

Existe um sofrimento que não cabe em post de rede social. Não é aquele da saudade declarada, da lágrima no aeroporto, do “tô com saudade do Brasil” que todo mundo entende e valida. É outro. Mais difuso. Mais difícil de nomear.

É a sensação de estar dentro da própria vida como se ela fosse levemente estranha. De participar de uma reunião escolar e sair sem ter entendido tudo. De ir à farmácia e hesitar diante de uma pergunta simples. De perceber que você — você, que sempre soube quem era — já não responde do mesmo jeito.

Eu conheço essa sensação. Fui para Toronto com 22 anos, recém-saída da faculdade, falando pouquíssimo inglês. Me sentia perdida com frequência. Tinha vergonha de falar na rua, na casa da família onde morava, na escola. Me ancorei em outros brasileiros, em mexicanos — e brinco até hoje que voltei do Canadá falando espanhol fluente. Mas há uma tristeza nisso também. Quando fui para a Inglaterra, cerca de um ano e meio depois, coloquei na cabeça que seria diferente: falaria inglês, deixaria a vergonha de lado. Me joguei. Só que a Inglaterra trouxe outra coisa — aqueles dias sem sol, a chuva quase diária, uma melancolia que foi chegando devagar. De Toronto eu não queria ter voltado. Da Inglaterra, quis. Fiquei um ano e senti, pela primeira vez, uma saudade que me puxou de volta.

Foi por isso que, quando encontrei Janaína de Carvalho, senti que ela estava descrevendo algo que eu carregava há anos sem saber o que era. Janaína é psicóloga, mora na Alemanha há quase dez anos e pesquisa o que a maioria das pessoas nunca considera antes de fazer as malas: o impacto psicológico de viver em outro idioma. Ela atende brasileiros espalhados pelo mundo — e sabe, por dentro, o que é ser a brasileira espalhada pelo mundo.

A prática dela se chama Anderssein. Em alemão: ser diferente.

O novo eu que ainda engatinha

Quando pensamos em aprender um idioma, pensamos em cognição. Em gramática, vocabulário, sotaque. Em ser mais ou menos inteligente, mais ou menos dedicado. Janaína pesquisa outra camada — a que fica por baixo de tudo isso.

“Você não está só aprendendo uma língua”, ela explica. “Você está construindo um novo eu naquele idioma. E enquanto esse novo eu ainda engatinho, o antigo continua sendo quem você era. São duas versões de si mesmo tentando coexistir.”

Essa coexistência é desconfortável. O adulto que aprende um novo idioma para viver nele — não para estudar, não para viajar, mas para resolver burocracia, entender o médico, saber se o filho está bem na escola — se vê num lugar inesperado: o de quem regrediu.

Quem tinha autoridade, vocabulário preciso, capacidade de argumentar, agora hesita, simplifica, às vezes cala. “Muita gente trava na hora de falar”, diz Janaína. “Não por falta de vocabulário. Mas porque não quer sentir o que vem junto: a vergonha, a regressão, o lugar de quem ainda não sabe.”

Pesquisas na área mostram que a imagem que a pessoa tem de um idioma antes de aprendê-lo influencia diretamente o quanto ela vai avançar. Alunos que descrevem o alemão com adjetivos negativos — agressivo, frio, difícil — tendem a desistir mais cedo ou a progredir mais lentamente do que aqueles que o descrevem de forma neutra ou positiva. Não é questão de inteligência. É questão de psique.

E o alemão, especificamente, carrega um peso histórico que chega antes da primeira aula. “A imagem que o brasileiro tem da Alemanha ainda é muito marcada pela Segunda Guerra”, observa Janaína. “A gente tem pouco conhecimento sobre outras coisas que se passam aqui. E essa imagem chega junto com o idioma.”

A identidade que não some — mas que dói ao crescer

Uma das perguntas que Janaína mais recebe — e que mais exige cuidado para responder — é sobre identidade. O brasileiro que vive fora um dia vai deixar de ser brasileiro?
A resposta curta é não. A resposta real é mais complexa.

“A psicologia intercultural entende que esse processo não é uma troca”, ela explica. “Não é uma substituição. É uma ampliação. A pessoa não vai deixar de ser brasileira. Mas vai começar a carregar o Brasil de um jeito diferente de antes.”

Essa ampliação acontece de forma gradual e silenciosa. Não tem data, não tem cerimônia. A pessoa percebe nas pequenas coisas — quando volta ao Brasil de férias e sente um estranhamento sutil com hábitos que antes eram automáticos. Quando percebe que pensa de formas diferentes dependendo do idioma em que está. Quando já não se reconhece completamente nem lá nem aqui.

“A gente fala de uma identidade intercultural”, diz Janaína. “Que permite à pessoa transitar entre diferentes referências culturais. Mas esse processo não é confortável. É um luto — o luto de uma versão anterior de si mesmo.”

Para a psicologia, esse processo não é positivo nem negativo. É complexo. E o que vai determinar como a pessoa atravessa essa travessia não é a força de vontade — é o acesso a recursos internos e externos. Inclusive terapêuticos.

Expatriado, imigrante, refugiado: o sofrimento não se mede pelo passaporte

Janaína faz uma distinção que parece técnica mas tem consequências práticas importantes. No campo dos estudos migratórios, nem todo brasileiro que vive fora ocupa o mesmo lugar — e as diferenças importam para a saúde mental.

O expatriado vai com prazo de retorno. Pode ser um contrato de dois anos, um visto temporário, uma experiência planejada. Ele parte com mais estrutura — muitas vezes com suporte financeiro de uma empresa, com uma data de volta marcada no horizonte. O imigrante vai com intenção mais definitiva. Reconstrói. Refaz vínculos. Escreve uma nova narrativa de vida.

Mas há uma armadilha no conforto aparente do expatriado. “Às vezes ele vive um grande período sem construir nada”, observa Janaína. “Não investe num relacionamento, numa amizade, nem no vizinho. Porque logo vai voltar. E isso pode deixá-lo num isolamento emocional profundo, apesar de toda a estabilidade material.”

Do ponto de vista da neurociência, o cérebro humano busca três coisas: previsibilidade, pertencimento e reconhecimento. A mudança de país desafia os três ao mesmo tempo. E isso vale para quem foi por escolha tanto quanto para quem foi por necessidade. “O fato de a pessoa ter escolhido morar em outro país não vai impedi-la de viver o luto migratório”, diz ela. “O sofrimento não é mensurável. Ambos podem sofrer.”

O que aparece no consultório

Os sintomas mais comuns que Janaína vê na clínica não são os mais dramáticos. São os mais silenciosos. Um cansaço que não passa mesmo depois de descansar. Uma preocupação vaga e constante — com os pais que ficaram no Brasil, com uma emergência que pode acontecer longe. Uma dificuldade de relaxar. Um medo de errar as regras sociais do novo país, de errar no idioma, de ser julgado antes de ter chance de se explicar.

“Não é necessariamente um transtorno”, ela explica. “Mas prejudica a vida da pessoa do ponto de vista funcional. Ela sente que não está conseguindo dar 100% — e aí vem a culpa, a autocrítica, a sensação de que deveria estar se saindo melhor.”

O que ela frequentemente precisa fazer, antes de qualquer outra coisa, é ajudar a pessoa a entender que os 100% dela agora estão sendo divididos com um aprendizado enorme — cultural, linguístico, identitário. Que não é fraqueza. É sobrecarga.

E a saudade? “A gente não a elimina no consultório”, ela diz. “Ajudamos a pessoa a conviver com ela sem perder a capacidade de investir na vida atual. Muitos imigrantes acham que sentir muita saudade significa que fizeram a escolha errada. Parte do trabalho é normalizar esse processo.”

Ela também fala sobre elementos concretos que ajudam — a comida, a música, objetos que remetem à origem. Tem até uma parceria com uma designer de interiores para pensar como a casa pode acolher essa dupla pertença. “Eu tenho um quadro de uma arara aqui em casa”, conta. “E um desenho da cidade de São Paulo na sala de jantar. São âncoras.”

Do outro lado da tela

Para cuidar de quem está longe, Janaína aprendeu a cuidar de si de um jeito muito específico. Atender brasileiros no mundo inteiro significa lidar com fusos horários que não param. Alguém em Tóquio, outro em Los Angeles, outro em Lisboa. Para isso, ela reserva dias fixos da semana para atendimentos noturnos — e nesses dias, protege a manhã. Não começa às oito e termina à meia-noite. Divide.

Mas o que ela descreve como essencial vai além da agenda. “O psicólogo intercultural precisa fazer terapia”, ela diz, direta. “Para lidar com o próprio processo migratório antes de atender outra pessoa que está vivendo o mesmo.”

E precisa desconectar. Literalmente. Quem trabalha o dia inteiro com tecnologia, organiza agenda online, cuida de redes sociais entre um atendimento e outro, precisa de momentos sem tela. Para Janaína, isso tem nome e horário: aulas de balé. “É um momento de desconexão total”, ela conta. “Naquele espaço, eu não estou pensando em fuso, em agenda, em migração. Estou ali.”

Talvez seja isso, também, o que ela ensina aos seus pacientes — não só com a teoria da psicologia intercultural, mas com o exemplo de quem aprendeu, na própria pele, que pertencer a dois mundos exige cuidado dobrado consigo mesmo.

Não romantize. Não dramatize. Viva.

Se Janaína pudesse dar uma única orientação para quem está prestes a migrar — não uma dica prática, mas algo psicológico — seria essa: não coloque a experiência em nenhum dos dois extremos. “A gente tem uma tendência de colocar tudo em dois polos”, ela observa. “Ou a migração é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, ou foi um erro. E eu acho que a experiência migratória não dá para ser classificada assim.”

Romantizar adoece. Dramatizar também. O que sustenta é aprender a viver no espectro — com as perdas e os ganhos, com a saudade e a curiosidade, com o luto e a ampliação.
E, acima de tudo: não passar por isso sozinho.

“Tem muitas ONGs, muitos recursos”, ela diz. “E tem a terapia. Mas, antes de tudo, tem as pessoas ao redor. O imigrante não está tão sozinho quanto pensa. O que falta, muitas vezes, é se permitir construir esses vínculos.”

*Janaína de Carvalho atende pelo Instagram @janainacarvalho.psicologa e pela plataforma Anderssein, em culturalmindcare.com

Dani Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.

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