Umbral do Som (por Lindolfo Paoliello)

“As asas da borboleta ruflam, badalam, farfalham?” .[...]

Decibel. Unidade de intervalo de potência utilizado para exprimir diferenças de nível de sensação acústica. Aos 140 decibéis o ouvido não resiste: ocorre a ruptura do tímpano. Ligeiramente acima de zero decibel situam-se os mais baixos sons perceptíveis.

É o umbral do som.

Ele estava com a filhinha de dois anos e dividia com ela uma maçã que ia lhe dando em pedaços bem fininhos, lentamente, e o domingo ia passando com o vagar de todos os domingos, enquanto ele sorria embevecido para a filhinha de dois anos quando, de repente, sentiu nos olhos da criança que alguma coisa havia acontecido.

Parou de mastigar a maçã e ela também, e ficaram se olhando como se cada um buscasse adivinhar no outro o que estava sucedendo; a menininha fez aquela cara que fazia quando alguma coisa estava errada, ele mantinha os olhos fixos nela – e aconteceu! Ela destampou a chorar.

Então a criança saiu correndo atrás da mãe e sua vozinha sumiu quando ela atravessou o corredor, enquanto ele mordia a maçã e sentia o corpo gelar porque havia ouvido, cristalinamente, o barulho da fruta sendo cortada, depois amassada, até descer formando um nó em sua garganta.

Aguçou os ouvidos e percebeu que os filhos conversavam no quarto de brinquedos. Um pouquinho mais de atenção e percebeu que a esposa falava com a filhinha, lá no quarto dos fundos campainha tocou e forte, foi abrir a porta e constatou que era no andar de cima.

Sentou-se procurando concentrar a atenção em um livro, quando ouviu um badalar de asas e viu uma borboleta que voava sobre a jardineira da sala de jantar. Mas a borboleta pousou e ele voltou a ter a sensação estranha que tivera ao morder a maçã: agora tinha ouvido o passar da página do livro.

Deitou-se no sofá, pensando um pouco, mas não, o sono não vinha, alguma coisa o fazia tenso como se um fio se mantivesse esvoaçante à sua frente e esse fio tinha algo a ver com o olhar espantado de sua filha, a mordida na maçã, o ruflar das asas da borboleta e ele agitou-se: as asas da borboleta ruflam, badalam, farfalham?

A borboleta partiu, indiferente à dúvida que o angustiava e conduziu-o à janela da casa vizinha onde pôde ver, pela vidraça, um casal que conversava. Franziu as sobrancelhas, retesou-se todo e constatou que podia ouvir, perfeitamente, que discutiam sobre os resultados do filho na escola. No entanto, nunca, nunca havia ouvido que falavam na casa do vizinho quando as vidraças estavam baixadas.

Uma idéia ocorreu-lhe; voltou à mesa da sala de jantar e retomou a maçã. Deu uma mordida, procurou lembrar-se da expressão da filha naquele momento em que alguma coisa acontecera. A primeira coisa que lhe veio à cabeça é que tinha ouvido claramente a voz dos meninos que conversavam, como se estivessem entretidos com um brinquedo qualquer. Levantou-se, correu ao quarto onde eles estavam e parou batendo as mãos chapadas nos alizares da porta, como quem se detém diante de um fantasma. Havia constatado que pela primeira vez, naquele domingo, alguém havia desligado a televisão.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.

“As asas da borboleta ruflam, badalam, farfalham?”

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