Uma vida a dois (por Lindolfo Paoliello)

Eu diria, tangenciando o absurdo, que o apaixonado percebeu o que o namorado e o marido não perceberiam.[...]

João Bacelar casou-se no dia em que começou a namorar Alicia. Eu bem poderia dizer que foi no dia em que se conheceram, tanta era a vontade que tinha de ser apresentado a ela e tantos os arranjos que fez para chegar lá. Mas a primeira impressão não lhe foi favorável. Sentiu na moça um não sei quê de vago, de impreciso, e tudo isso se traduzia na desatenção às coisas que lhe dizia.

No entanto, a percepção de João Bacelar funcionou como uma roldana que vai soltando um cabo a toda velocidade e, de repente, trava-o e o vai recolhendo aos poucos. João telefonou para Alicia três vezes naquela semana, apenas uma vez na semana seguinte, e na terceira semana, optou por não telefonar. Eu diria, tangenciando o absurdo, que o apaixonado percebeu o que o namorado e o marido não perceberiam.

O vestibular fez com que João deixasse de ter em Alicia o centro de suas preocupações; a universidade fez com que a esquecesse. O primeiro emprego, que veio logo em seguida, rendeu-lhe um talão de cheques e novas aspirações. Seus primeiros anos de juventude haviam sido consumidos na militância estudantil secundarista e só então, aos 22 anos, é que João se abriu para o mundo em que vivia a maioria dos seus amigos. Conheceu os prazeres da vida noturna e das viagens, passou a freqüentar clubes e festas e a praticar esportes, atividades para as quais a política estudantil não lhe havia permitido tempo. A descrença em relação às pessoas e aos ideais empurrava-o para a farra, e o dinheirinho do primeiro emprego assegurava-lhe o impulso.

Brás Cubas amou Marcela durante quinze meses e onze contos de réis; a descoberta da vida mundana por João Bacelar durou pouco mais que isso e não lhe terá custado menos; um ano e poucos meses depois de ter começado o que chamava de sua “vida de menino rico”, reencontrou Alicia em uma festa. Olharam-se, conversaram, dançaram, tocaram-se e, ao fim da festa, um beijo selou o encontro: eram namorados.

Vá a leitora, que é romântica e sensível, entender as razões dos namorados; eu já nem tento. Uma ou duas palavras ternas, um olhar dengoso, um carinho, um gesto, e a razão pede pernas pra que te quero. Só o proprietário pode despejar a paixão quando ela se aloja como inquilina. João Bacelar, a quem a razão não podia contrapor nada mais que cismas, fez com Alicia o que costumava fazer sempre que algum problema o afligia: não a afastou, nem procurou decifrá-la: casou-se com ela.

Quando a etimologia nos ensinou a utilizar a palavra “razão” também no sentido de “conta corrente” ela o fez baseada, com certeza, não na experiência dos contadores, mas na do marido e mulher. Existe uma razão dos casais, e ela nada mais é do que um livro de escrituração em que se anotam um arranjozinho aqui, uma concessão ali, ao débito de uma falta contrapõe-se o crédito dos bons antecedentes ou de um belo gesto e pronto: o saldo das contas é positivo.

João Bacelar e Alicia foram felizes na forma como a maioria dos casais se julga feliz. Ele ia ao trabalho, ela à feira, ao supermercado, ao açougue, às compras de pequenas futilidades e às casas das amigas. Nem ele procurava sem ela qualquer divertimento, nem ela sem ele; à noite encontravam-se, jantavam, viam televisão, e somos felizes. Quando as aspirações do correntista não são muitas, qualquer saldo positivo é lucro; João Bacelar e Alicia eram felizes.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-amadas.

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