Uma vida a dois (II) (por Lindolfo Paoliello)

O leitor há de estar lembrado que eu disse, na crônica anterior, que existe uma “razão” dos namorados e dos casados..[...]

A crônica é um gênero literário exposto às intempéries, visto que impressa em jornal, longe do abrigo seguro das edições de luxo. Esta é a sua fraqueza e a sua força. Assim como está sujeita a uma passagem fugaz pelos nossos olhos e desaparecer de vez na cesta de lixo, pode reaparecer de forma prosaica embrulhando sapatos consertados ou ainda, insistente, forrando o piso do carro recém-lavado.

Só porque sei que a crônica, em sua modéstia, costuma nos revisitar em formas tão imprevisíveis é que me permito imaginar que meia dúzia de leitores ainda cogita, algum tempo depois, sobre o que se passou na vida conjugal de um personagem chamado João Bacelar.

Vai se decepcionar quem esperava por isso, porque não vou falar de João Bacelar; falarei de Alícia. Tinha quinze anos quando a conheceu, e era alvo da proteção extremosa de pai e mãe que a adoravam. O pai era próspero comerciante atacadista que se havia proposto a dar aos filhos tudo o que não tivera, incluindo o conforto e a educação, mas excluindo o livre-arbítrio. “Sei o que é bom para a minha família”, ele falava, a mãe dizia “amém” e os filhos obedeciam. Alícia florescia. Entre chás beneficentes, festinhas em casas de amigas e o colégio de elite, pairava em sua juventude.

Um dia, alguém lhe apresentou um rapaz que ela reputou de “interessante” porque era diferente de seus amigos. Tão diferente que muitas coisas que ele lhe dizia soavam vagas, e ela, sem perceber, desviava o assunto para o seu mundo que era o mesmo que o dele, só que em planos diferentes.

Alícia percebia os olhares de João, correspondia aos seus sinais e respondia aos seus recados, por isso não pôde entender quando ele se distanciou dela pouco depois que se conheceram. Estranhou e foi só: as festas e os amigos fizeram o resto, logo ela o esquecia.

Aonde levam as festas e os prazeres? Terminado o segundo grau, que naquela época se chamava científico, Alícia sentia um profundo tédio. Ocupava o tempo entre o clube, os discos e os amigos, mas sentia falta de alguma coisa que ela mesma não sabia o que era. Até que, em uma festa, reencontrou João Bacelar. Como lhe faltava alguma coisa muito forte, julgou que fosse um marido, e dedicou-se toda a conquistar o que lhe faltava. A jovem mimada, que via os pais envelhecerem, precisava assegurar sua proteção; o rapaz idealista, decepcionado com as instituições e as pessoas, precisava acreditar em alguém: logo se casaram.

O leitor há de estar lembrado que eu disse, na crônica anterior, que existe uma “razão” dos namorados e dos casados. Pois ela existe, e a conta corrente das relações de Alícia e João Bacelar foi positiva, até ela perceber que duas ou três de suas maiores amigas se realizavam em sua profissão e, quase simultaneamente, que a proteção que havia buscado naquele rapaz lhe era agora sufocante. De repente, o espaço doméstico ficou pequeno demais, e Alícia procurou outras pessoas e outros afazeres, e João, que não tinha ciúmes, ficou ciumento.

João, que não tinha vivido a juventude e, na idade adulta, vivera para Alícia, ao sentir falta das mãos que o acariciavam em suas angústias, passou a procurar na rua o que havia idealizado encontrar no lar.

Uma razão existe, não a percamos de vista, que precede e orienta a dos casais, e esta é a razão dos contadores. É a conta, o disponível, o que tem a ver. Uma tarde, ao dar a volta na fechadura quando chegava em casa, João Bacelar ouviu Alícia ao telefone, e ela dizia assim: “Ah, minha filha, você nem tenha dúvida, ele pode ter as aventuras que tiver, que eu desconto isso no seu talão de cheques”.

João Bacelar, que já havia aberto a porta, não teve como recuar porque, ao terminar a frase, os olhos de Alícia estavam estatelados nos dele. No entanto, fechou suavemente a porta e voltou ao elevador, enquanto a mulher corria à janela para vê-lo entrar no carro e partir. Poucos dias depois, os jornais anunciavam a morte de João Bacelar, em um atrito entre militantes políticos e a polícia. Corria o ano de 1972.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Religião das Mal-Amadas.

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