
Vivemos um tempo em que a natureza dá sinais de exaustão, o crescimento econômico nem sempre se converte proporcionalmente em bem‑estar, as guerras reaparecem como instrumento banal de poder e as democracias sofrem erosão de confiança. Não é apenas crise econômica ou ambiental: é choque entre um modelo de expansão contínua e limites físicos e sociais.
É esse o pano de fundo do livro Economia, Guerra e Pandemia: a Era da Desesperança (2025), de Ricardo Guedes. Seu diagnóstico é contundente e elimina qualquer ilusão de que os ciclos se autoajustarão: as tendências atuais de degradação não são cíclicas, são cumulativas. Chegamos a um ponto em que a mera esperança de reversão se tornou uma irresponsabilidade técnica. É preciso reorganizar as economias sob novos paradigmas, o que exige, antes de tudo, uma nova ética.
O princípio responsabilidade
Que filosofia seria essa capaz de sustentar um novo mundo de limites, valores e tecnologias? Em Hans Jonas encontramos uma resposta surpreendentemente adequada. Na obra O princípio responsabilidade (1979/2006), ele constata que a natureza da ação humana mudou. Hoje, construímos um ambiente onde artefatos moldam e até substituem processos naturais. O problema é que a distância entre nossas ações e a capacidade de prever suas consequências aumentou drasticamente.
Nesse cenário, o poder humano se tornou tão amplo e duradouro que as éticas clássicas, de efeitos curtos e reversíveis, já não bastam. Jonas propõe um imperativo simples, mas dirigido à toda a espécie humana: agir de modo compatível com a permanência da vida na Terra.
Como proceder
A novidade é um deslocamento moral da ética. Não mais se orientar apenas pela intenção ou pela reciprocidade imediata e, sim, incluir a responsabilidade pelo que é frágil ou que vai sofrer as consequências. Surge uma ética do limite, da prudência e da contenção: nem tudo o que é tecnicamente possível deve ser realizado. Se a técnica ampliou o poder, a ética deve ampliar o cuidado.
Nessa relação tensa entre o homem e o planeta, a tentação do lucro muitas vezes nos cega para a linha que separa, de um lado, o uso legítimo dos recursos e, de outro, o que seria visto como traição. Esta ocorre quando nossa atividade provoca a extinção de uma espécie ou a degradação irreversível do ambiente. Diferentemente de crises que podem ser revertidas, a extinção é um absoluto. Ao cruzar essa fronteira, traímos o pacto com o futuro, pois retiramos de parte do planeta a própria possibilidade de jogar, devolvendo um tabuleiro onde as peças fundamentais já não existem.
Isso coincide com Guedes e com um mundo que só agora reconhece os resultados de seus atos. Neste momento, já faz sentido que o princípio organizador não seja mais a expansão, mas a responsabilidade intergeracional.
A dificuldade
A proposta de Jonas, porém, esbarra em uma dificuldade antropológica profunda: nossa tendência inata a priorizar o presente. Seu imperativo exige que abramos mão de benefícios imediatos em favor de gerações futuras, entes distantes, incertos e incapazes de nos retribuir ou punir. A história, no entanto, nos alerta: mesmo com os esforços de religiões, leis e Estados, prevalece o interesse de curto prazo. Isso não se deve apenas à má-fé, mas a uma combinação de fragilidade moral, incentivos tortos e limites cognitivos. A exigência é correta; a natureza humana, instável. Ignorar essa tensão tem um custo alto: transforma uma ética necessária em mero idealismo, que fracassa ao depender de atos heroicos.
Uma possível saída
Aqui, Jonas oferece sua intuição mais fecunda: a heurística do medo. Não se trata do medo natural que paralisa, mas de um princípio heurístico, isto é, uma regra orientadora de prudência que rompe com o otimismo ingênuo. Diante de tecnologias capazes de causar danos irreversíveis, a esperança de que ‘tudo dará certo’ não é virtude, mas aposta temerária com a vida alheia.
A dúvida deve se inclinar sempre a favor da contenção, priorizando o risco do pior cenário concebível. Esse medo calculado funciona como uma bússola moral. Ele nos obriga a exercitar a imaginação moral para visualizar desastres prováveis e para agir preventivamente, tornando o futuro concreto nas deliberações presentes.
Alinhando incentivos
A partir daí, a responsabilidade deve migrar do heroísmo ético para a arquitetura das escolhas. Em um novo ambiente de decisão, devemos pragmaticamente, construir regras e instituições que tornem a prudência a opção mais barata e a irresponsabilidade, a mais custosa. A educação, integrada a esse arranjo, torna inteligível o vínculo entre escolhas imediatas e efeitos cumulativos. Ela agora ensina quando frear, quando duvidar, quando dizer não à própria decisão técnica.
É nesse contexto que precisamos aprender a valorizar o invisível: o longo prazo, os ainda ausentes, as sequelas que se acumulam em silêncio. Precisamos, sobretudo, aprender a amar um herói que ainda não tem rosto: o neto da nossa neta. É ele quem nos convoca à responsabilidade. Se não garantirmos a sua vida, nossa própria existência perde o sentido moral. Esse herói do futuro é quem nos salva da desesperança e da autodestruição.
Elson Luiz de Almeida Pimentel
Mestre em Filosofia pela UFMG
Autor de Dilema do Prisioneiro: da Teoria dos Jogos à Ética



