
Repórter: O presidente tem condição de superar o episódio sem traumas?
Nunes: O escândalo abalou o governo, e de maneira muito surpreendente. Desde o governo Collor, fatos desta magnitude assustam a população. O cidadão sente orgulho quando a imagem do seu governante é cristalina, límpida, como se ele estivesse vendo no espelho uma imagem de si mesmo.
Reporter: A imagem presidencial ficou maculada?
Nunes: Eu acredito que sim. Há um livro francês chamado “O Indivíduo ferido no coração pelo Poder Público“. É aquele cidadão que vê a sua própria imagem maculada quando a honestidade do governante é questionada. É como se existisse uma interação implícita entre cada indivíduo e seus governantes. E é como se esta mácula fraudasse esta imagem. Isto já aconteceu no país no governo Collor. Hoje há muita decepção e frustração. Talvez a imagem possa ser recomposta. Há uma possibilidade de recuperação, mas a ferida é muito dolorosa.
Repórter: A partir deste momento podemos dizer que os pilares programáticos do governo ficaram mais frágeis?
Nunes: Acho que sim. Mas o importante neste momento é descobrir se esta ferida atinge a relação dos cidadãos com a presidente ou com apenas algumas pessoas do seu governo. Em todo caso, de alguma maneira a presidência fica contaminada porque num sistema presidencialista, quase monárquico como o nosso, é muito difícil que o indivíduo não identifique os erros do governo com os erros da presidência, e não associe sua decepção à figura do presidente.
Repórter: Até que ponto a demissão de pessoas envolvidas no escândalo pode contribuir para que a crise seja superada.
Nunes: Vendo aqui debaixo, como cidadão, acho que um amigo ou associado, numa circunstância desta, deve se afastar do presidente. Os envolvidos devem se afastar do governo para preservar a presidência.
Repórter: O Congresso Nacional é a expressão do clientelismo?
Nunes: Com certeza expressa muito o clientelismo por falha na estrutura política brasileira. Os partidos políticos brasileiros têm o monopólio da participação política, mas eles não têm o monopólio da representação. Na prática, o deputado não representa partido nenhum, representa a si mesmo. Isto faz com que ele tenha uma tendência clientelista inevitável.
Repórter: Como o senhor analisa a expectativa do brasileiro em relação aos políticos?
Nunes: O problema todo é que os políticos tem feito do Brasil e da política do Brasil uma profecia que frequentemente se auto cumpre. Quando você analisa as pesquisas de opinião, constata que as pessoas têm uma expectativa muito ruim em relação aos políticos, um descrédito muito grande. E cada vez que eventos como este, da compra de votos, se repetem, trata-se de fazer a profecia que se auto-cumpre. É um reforço ao descrédito. O mais interessante é que estas práticas corruptas, clientelistas são tradicionais no sistema político.
Repórter: Mas então o capitalismo é o culpado pela venda de votos?
Nunes: É que em algumas sociedades, como a brasileira ou a italiana, por exemplo, estas características sobreviveram de forma solidária, pessoal. A sociedade não passou para o capitalismo moderno, em que prevalece a impessoalidade. Mantém-se, então, o padrão de trocas generalizadas, e não específicas, A sociedade brasileira tem como característica as relações pessoais de trocas. Não é uma sociedade rudimentar. Pelo contrário, é plenamente capitalista, mas numa versão diferente da que conhecemos no Norte Europeu e nos Estados Unidos.
Trata-se de um capitalismo permeado por aquilo que, talvez erroneamente, chamamos de cordialidade brasileira. Mas apesar desta cordialidade, é uma sociedade com distribuição de renda absolutamente desigual, com corrupção e muitos problemas sociais.
Repórter: As gravações divulgadas esta semana sobre a venda de votos mostram que as conversas eram cordiais…
Nunes: A venda de votos é, na verdade, um ato de banditismo, mas fica debaixo desta capa de cordialidade. Não parece conversa bandida, parece uma conversa solidária, de bons companheiros.
(Entrevista ao Jornal do Brasil, em 18 de maio de 1997)
Edson de Oliveira Nunes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Berkeley. Foi Presidente do IBGE, Presidente do Conselho Nacional de Educação. É Professor Emérito da Universidade Candido Mendes. Autor



