
Nestes últimos 250 anos, da era da Revolução Industrial, nos pautamos pelas ideias Baconianas de racionalidade e de progresso, na expansão da economia e aumento da renda, na tentativa de se fazer um mundo melhor. A concentração de renda, a compressão das classes médias, e os limites impostos à economia pelo meio ambiente, entretanto, mudam o cenário Baconiano para a política do desespero, onde grassa o pragmatismo exacerbado. Na descrença dos valores, o ódio e a irracionalidade se sobrepõem à ciência e à ponderação, como último produto da era moderna.
A Ordem Mundial pós 2ª Guerra, com a criação da ONU, FMI e Banco Mundial, se desfaz, tão bem analisado por Paulo Paiva em seus trabalhos, do período da Revolução Industrial à desestruturação da Ordem Mundial atual.
Existem três regras neste momento que se inicia: grana, grana e grana. O quarto motivo, tem pouca relevância.
O conceito de liberdade se torna absolutamente inaplicável, como conceito do passado, sem pauta no presente. Os ideais deixam de existir. A ideologia, antes percebida como o conjunto de preceitos que norteiam as atitudes e ação dos então cidadãos, passa ser categorizada pelos mais fortes como os argumentos dos fracos.
Na sequência histórica do que há de se seguir, três fases:
1ª fase: do pragmatismo sem limites que leva à guerra
2ª fase: das guerras pela sobrevivência que leva à possível aniquilação
3ª fase: do medo, já diante do abismo, na pergunta “o que fazer”?
Como no enigma da Esfinge, “decifra-me, ou devoro-te”.
O mundo é hoje limitado pela ecologia. A temperatura média do planeta deverá subir cerca de +2oC até o final do século, com o nível do mar podendo subir em até de 2m, gerando o que António Guterres, Secretário Geral da ONU, chamou de “êxodo de proporções bíblicas” da população dos litorais para o interior dos continentes, desorganizando as bases socais. Adicionalmente, os recursos naturais, como o petróleo e os minerais, se tornarão cada vez mais escassos, desorganizando a base econômica. Consequentemente, a instabilidade política.
A entrada de Trump na Venezuela legitima, em um ambiente já desprovido de ideologia, a invasão de países por outros países, se suficientemente fortes, por interesses próprios, gerando uma delicada balança instável de limites de até onde se possa ir.
Os objetivos das elites econômicas e políticas, desprovidas de valor, são os seguintes: a manutenção do poder; a obtenção de recursos hídricos e naturais, como petróleo e minerais estratégicos; e o posicionamento geopolítico no mundo.
Após a Venezuela, que detém 18% das reservas mundiais do mundo, o próximo objetivo de Trump é a ocupação da Groenlândia, pelo seu petróleo, terras raras e posição geopolítica. O eventual rompimento com a OTAN não parece ser um problema maior para Trump. Um novo acordo poderia ser refeito dentro da própria OTAN, ou através de nova sigla, ou segundo acordos informais, posto ser a Europa hoje dependente econômica e politicamente dos Estados Unidos para a sua melhor sequência.
São hoje três as superpotências mundiais, levando em conta a dimensão territorial, população, economia, capacidade tecnológica, e poderio militar: os Estados Unidos, a China e a Rússia. E não há mais tempo, dada as limitações ecológicas, de alterações significativas neste cenário. A nova ordem mundial gira em torno desses países, no que eles fazem, e no que irão fazer.
Os demais países e blocos orbitam politicamente em torno das decisões destes três países, embora possam ter relações econômicas mais diversificadas, mas politicamente limitadas. As Américas, por decisão até o momento de Trump, devem orbitar em torno dos Estados Unidos, segundo a nova versão da Doutrina Monroe. A Europa Ocidental, no declínio de sua importância histórica, orbita em torno dos Estados Unidos, dependente que é de seus recursos financeiros e militares para se contrapor à Rússia. O entorno da Rússia, como a Bielorrússia, a Ucrânia, a Georgia, e outros países, ficam na alçada da Rússia, sob a doutrina da Ameaça Existencial, na qual a Rússia se pauta para as suas ações de domínio, uma vez que haja a percepção de perigos para o país no momento. O MENA – Middle East e North Africa, tentam a formação de um bloco, mas infrutífero, posto que se baseiam quase que exclusivamente na “monocultura” do petróleo, como produtores e fornecedores de outros países. A Ásia é cada vez mais parte da influência e domínio da China. A Índia também cresce. A África tem pouca força para a formação de bloco independente. O acordo União Europeia-Mercosul dá-se dentro deste contexto, na tentativa de uma alternativa.
A máxima do Governo Trump é a de que “os Estados Unidos não têm amigos, mas interesses”.
O problema reside na queda da influência dos Estados Unidos e subida da China no palco internacional. De 1960 a 2025, o PIB dos Estados diminuiu de 40% para 26% do PIB mundial, Europa de 21% para 19%, China de 4,4% para 19%. E a China continuará a crescer. O índice urbanização dos Estados Unidos é de 82%, Europa de 80%, China de 60%. Além do desenvolvimento tecnológico e econômico que a China experimenta, a continuidade da urbanização da China aumentará, em muito, a sua produtividade e o PIB.
Na história, toda substituição de um antigo líder por um novo líder mundial, ocorreu sob guerra. O século XV foi de Portugal; XVI da Espanha; XVII da Holanda; XVIII da França; XIX da Inglaterra; XX dos Estados Unidos. No desmantelamento do Império Britânico no final do século XIX e início do século XX, e crescimento industrial da Alemanha na primeira metade do século XX, a imposição de tarifas à Alemanha pela Inglaterra, seguida pela França, foi o gatilho para duas Guerras Mundiais. Os Estados Unidos foram o elemento surpresa, como nova potência não esperada e surgida do outro lado do Atlântico. Durante a 2ª Guerra Mundial, o PIB dos Estados Unidos subiu +70%, Inglaterra +15%, Alemanha -19%, Japão -22%, Itália -39%, França -49%, Rússia -6%.
O equilíbrio entre os três polos, os Estados Unidos, a China e a Rússia, entretanto, diante de recursos escassos, é instável, e altamente sujeito a guerras e conflitos. Segundo a Teoria dos Jogos, todo acordo tripartite tende à instabilidade, poque o que duas partes acertam não é necessariamente aceito pela terceira parte, principalmente diante de recursos limitados. Os conflitos e guerras se sucederão, em maior ou menor extensão.
Existem hoje 11 guerras em curso no mundo, e cerca de 60 conflitos armados.
O mundo se depara com a questão do que fazer. As elites econômicas e políticas, entretanto, se pautam pela acumulação e uso máximo dos bens produzidos a curto prazo, em detrimento da hipótese de preservação dos ganhos, e da natureza, para o bem social e para as futuras gerações. É a junção da luta por recursos e do posicionamento geopolítico, juntamente com o pior do comportamento humano, da avareza e da indistinção.
“E La Nave Va”, como no filme de Fellini. Ou, como “A Nau dos Insensatos”, na pintura de Jeroen van Aken.
Ricardo Guedes é Ph.D. em Ciências Políticas pela Universidade de Chicago e Autor do livro “Economia, Guerra e Pandemia: a era da desesperança”



