Stoops: o que eles revelam sobre classe e cidade na Nova York do século XIX

Nas casas de luxo da Nova York do século XIX, as escadas de entrada, os famosos stoops,  iam muito além de uma solução prática contra [...]

Nas casas de luxo da Nova York do século XIX, as escadas de entrada, os famosos stoops,  iam muito além de uma solução prática contra lama, esgoto e enchentes. Elas se tornaram um marcador visível de status social. Em bairros abastados como Upper East Side, Upper West Side, Brooklyn Heights e outras áreas hoje protegidas por órgãos de preservação histórica, a entrada elevada afastava a vida doméstica do ruído da rua e da circulação intensa de carroças, animais e vendedores. A arquitetura, assim, colocava a “boa casa” alguns degraus acima do cotidiano urbano.

O próprio termo stoop carrega essa herança histórica. A palavra vem do holandês stoep, usada para designar degraus ou entradas elevadas, e sobreviveu como vestígio linguístico da época em que Nova York ainda era Nova Amsterdã, no século XVII. Muito antes dos brownstones do século XIX, a cidade já incorporava soluções arquitetônicas trazidas por seus primeiros colonizadores, que seriam reinterpretadas ao longo do tempo.

Essas residências urbanas de elite também dialogavam com o princípio europeu do piano nobile: o andar principal, ligeiramente elevado em relação à calçada, concentrava salões, salas de estar e espaços de recepção, beneficiados por mais luz, ventilação e privacidade. O nível inferior, conhecido como basement ou garden level  ficava parcialmente abaixo do nível da rua e abrigava cozinhas, áreas técnicas, depósitos e circulações de serviço, reforçando a separação entre quem era recebido e quem trabalhava na casa.

Nos bairros operários e nos prédios de tenement, a lógica era diferente. A elevação da entrada existia sobretudo por razões práticas: proteção contra sujeira, umidade e alagamentos. Não tinha o refinamento espacial e simbólico presente nas casas de luxo. Ainda assim, a solução se espalhou pela cidade, adaptada a diferentes realidades sociais.

Com o avanço do saneamento, da pavimentação e dos sistemas modernos de drenagem no final do século XIX e início do XX, a função original dessas escadas perdeu parte de sua relevância. A forma, porém, permaneceu. Em muitos brownstones, os stoops chegaram a ser removidos e depois restaurados, justamente porque passaram a ser reconhecidos como elementos essenciais da identidade urbana de Nova York. Hoje, esses degraus que antecedem a porta de entrada são, ao mesmo tempo, espaço de convivência, símbolo de charme arquitetônico e vestígio material de uma época em que a hierarquia social se desenhava em diferentes níveis da fachada das casas.

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