Sorites, hipocrisia e emaranhamento (por Elson Pimentel)

No filme alemão ‘Uma Cidade Sem Passado’ (Die Schreckliche Mädchen, Verhoeven, 1990), uma jovem decide investigar o comportamento de sua pequena cidade bávara durante o [...]

No filme alemão ‘Uma Cidade Sem Passado’ (Die Schreckliche Mädchen, Verhoeven, 1990), uma jovem decide investigar o comportamento de sua pequena cidade bávara durante o período nazista. O que começa como um projeto escolar transforma-se em uma odisseia de obstrução sistemática. Quando a estudante Sonja descobre que um comerciante judeu foi forçado a vender sua loja por cem cuecas durante a ‘arianização’ — essencialmente um roubo legalizado — a comunidade reage com hostilidade crescente.

O que torna esse filme filosoficamente fascinante não é apenas o que ele mostra, mas como revela os mecanismos pelos quais as sociedades constroem e mantêm suas ficções coletivas.

O paradoxo

O paradoxo do sorites, conhecido desde a Grécia antiga, funciona assim: se você tem um monte de areia e remove um grão, ainda tem um monte. Continuando esse processo, acabará não sendo mais um monte, porém é impossível determinar exatamente quando deixou de sê-lo. A transição é naturalmente difusa, sem linha clara. Os cidadãos da cidade não acordaram um dia decidindo ser cúmplices. Foi uma sucessão de pequenas concessões: olhar para o lado quando um vizinho judeu é humilhado, aceitar comprar uma loja ‘arianizada’ por preço baixo, não questionar desaparecimentos. Cada grão de areia removido da integridade moral.

A lógica do sorites permite que cada indivíduo se sinta inocente. “Eu só comprei uma loja”, “Eu só não protestei”, “Eu só segui ordens”. Quando exatamente alguém se torna ‘culpado’?

A hipocrisia

Mas há uma segunda camada que o filme revela magistralmente: a hipocrisia social não é apenas esquecimento passivo. É uma performance ativa, um faz de conta em que todos são simultaneamente atores e personagens de uma peça ensaiada. Durante anos, a cidade persegue Sonja e obstrui sua pesquisa.

Depois que ela ganha reconhecimento externo, a mesma comunidade decide ‘honrá-la’ com um busto. A cerimônia se desenrola com discursos pomposos. Só no momento final, quando esperam sua aceitação, Sonja recusa publicamente. Essa sequência revela algo crucial: a comunidade estava ativamente reescrevendo sua história de obstrução, se transformando de antagonista em ‘descobridora de talentos’. Estava representando uma ficção de que sempre apoiou a busca pela verdade.

Cada pessoa desempenha um papel: o cidadão respeitável que ‘não sabia de nada’, a autoridade que ‘apenas cumpria procedimentos’. São personagens em uma peça cuja trama é: ‘somos pessoas boas em uma cidade boa’. Quando todos atuam na mesma peça, a distinção entre ator e personagem se dissolve. A máscara e o rosto se fundem.

O emaranhamento

O que torna a situação enganosa é o emaranhamento: o gradualismo do sorites e a teatralização da hipocrisia se reforçam mutuamente. A vagueza moral do sorites torna a encenação plausível. Como nenhum ato individual define culpa clara, cada pessoa pode confortavelmente acreditar em seu papel de ‘pessoa boa’. E a performance coletiva reforça essa ambiguidade.

Quando todos à sua volta fingem inocência, quando o roteiro social justifica cada pequeno ato, torna-se ainda mais difícil perceber onde estava a linha que separa a cumplicidade da inocência. A teatralização normaliza o gradualismo.

O caso concreto

No Brasil contemporâneo, esse emaranhamento assume forma inversa. Diferentemente da cidade alemã, que escondia a linha entre cumplicidade e inocência numa zona cinzenta conveniente, nosso Direito precisa traçá-la com precisão geométrica: aos 14 anos termina a vulnerabilidade, aos 18 começa a imputabilidade plena. São cortes necessários para evitar insegurança jurídica, pois todos conhecem onde está a linha. Mas é justamente essa nitidez obrigatória que gera seus próprios danos: o adolescente de 16 anos que lidera estruturas criminosas é tratado como inimputável, enquanto o jovem de 18 sem discernimento vai ao sistema prisional.

Em situações extremas, a aplicação rígida da proteção pode produzir o que a lei busca evitar: a menor impedida de manter vínculo conjugal também não pode trabalhar legalmente, restando-lhe miséria ou prostituição. Onde a cidade do filme fingia não ver a vagueza moral, nós fingimos não ver os custos de eliminá-la. Ambos são modos de fugir ao paradoxo: um pela nebulosa, outro pela clareza que machuca. E em ambos, quem aponta o emaranhamento — Sonja lá, o juiz que hesita aqui — é recebido com hostilidade.

O custo da recusa

No filme, um personagem secundário ilustra o custo da recusa à encenação coletiva: um velho ativista que resistiu ao nazismo vive marginalizado em um vagão. Quando Sonja o procura para gravar depoimento, são atacados. Na cerimônia do busto, ele está presente como testemunha silenciosa do custo de não entrar na peça: marginalização, pobreza, esquecimento.

A garota Sonja é ‘terrível’ (schreckliche) porque se recusa a jogar ambos os jogos: insiste em traçar linhas claras onde a sociedade prefere ambiguidade, e não aceita nenhum papel no teatro coletivo. No momento culminante, ao rejeitar publicamente a homenagem, ela não apenas expõe aquele ato, ela obriga a plateia a se reconhecer também como atores da farsa.

O filme não oferece final triunfalista. Um momento discreto — seus pais cumprimentados na rua — mostra reconhecimento tímido de que ela estava certa. Uma pequena fissura na fachada coletiva. Esse detalhe sugere que há limites para o poder do sorites e da teatralização. Grãos podem ser removidos imperceptivelmente, performances mantidas por décadas, mas documentos existem e testemunhas sobrevivem. E algumas pessoas teimam em não esquecer.

Conclusão

Uma cidade sem passado’ não é apenas sobre a Alemanha nazista. É sobre como qualquer sociedade administra suas contradições morais. O paradoxo do sorites nos lembra de vigiar as pequenas concessões. E a análise da hipocrisia como performance nos alerta para o perigo de viver papéis sem questionar o roteiro. Essas estruturas operam em toda parte, inclusive aqui e agora. Porque quando removemos o último grão de areia da nossa integridade moral, quando nos fundimos completamente com o personagem que encenamos, já não sabemos mais quem éramos antes da peça começar.

Elson Luiz de Almeida Pimentel

Mestre em Filosofia pela UFMG

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