
Quando as regras espantam a espontaneidade, as relações precisam ser mediadas por regras
draconianas e autoritárias, impostas e mantidas pelo poder público.
O primeiro caso de zoneamento do solo foi criado numa pequena cidade da Califórnia
(Modesto), em 1885, como uma medida “legal” para impedir a instalação de negócios
chineses em bairros (mantendo nas periferias. Com o “sucesso” da medida, a “proibição
legal” ganhou corpo e passou a limitar a construção de prédios com múltiplas habitações, e
edificações de uso misto nos bairros residenciais (a partir do advento do zoneamento,
exclusivamente residenciais, e unifamiliares). Com essa restrição, “conquistaram” a
segregação por nível social, impedindo habitações de mais acessíveis para as populações
de menor poder aquisitivo. De quebra, mantiveram longe as famílias negras vindas do Sul
em busca de melhores empregos.
Vendida como uma moderna ferramenta para organizar o território, o mito do zoneamento é
pura instrumentalização “legalizada” da segregação enquanto política urbana.
Num caso descrito por Malcom Gladwell em “O Outro Lado do Ponto de Virada”, “no fim
da década de 1940, um grupo chamado Palo Alto Fair Play Comittee passou a se preocupar
com a situação imobiliária de sua cidade. Negros estavam se mudando para a área, e um
dos poucos lugares onde podiam morar era um trecho densamente povoado da Ramona
Street, na parte mais antiga da cidade. Os membros do comitê levaram em consideração a
crise que ocorria em outras cidades americanas e resolveram que em Palo Alto seria
diferente.
“Não tínhamos ilusões sobre solucionar o problema imobiliário, mas queríamos tomar
alguma atitude”, diria Gerda Isenberg, uma das líderes do grupo, muitos anos depois. “Eu
tinha tanta noção sobre como organizar aquilo quanto de como mandar o homem à Lua. As
reuniões eram um pesadelo. Meus advogados disseram que era melhor desistir.”
Mas o grupo insistiu. Outro membro do comitê, um estudante negro chamado Paul
Lawrence, que fazia pós-graduação na Universidade de Stanford, recebeu a tarefa de
encontrar um terreno. Localizou um espaço próximo a uma fazenda de produtos lácteos na
fronteira da cidade. O preço foi 2.500 dólares. Dez membros do grupo colaboraram com 250
dólares cada. Dividiram o espaço em 24 lotes residenciais e um parque, e elaboraram um
conjunto de regras.
Os lotes do terreno seriam divididos em três, seguindo rigidamente a Lei do Terço Mágico:
uma proporção igual de brancos, negros e asiáticos. Proprietários negros só poderiam
vender para negros, brancos só poderiam vender para brancos e assim por diante. Foi
acordado que a população negra jamais passaria de um terço dos residentes.
A comunidade chegaria ao limite do ponto da virada, mas não o ultrapassaria.
Uma fileira de pequenos imóveis foi construída ao longo da rua. Os primeiros moradores
foram Ethel e Reo Miles, negros.
Os segundos foram Elizabeth e Dan Dana, brancos. Os terceiros foram Melba e Leroy Gee,
asiáticos. Para maximizar o contato entre os grupos, duas famílias da mesma etnia não
podiam ser vizinhas de porta.
Os moradores se reuniam mensalmente.
Marcavam eventos sociais. Os homens saíam juntos para caçar. “Quando me mudei para o
bairro, fiquei muito impressionado”, disse um morador. “Vizinhos de todas as cores vieram,
carregaram meus móveis, me ajudaram a guardar as coisas. As mulheres da vizinhança
levaram minha esposa para tomar chá enquanto os homens me ajudavam a ajeitar a casa.”
Isso aconteceu na década de 1950: em algumas partes dos Estados Unidos, racistas
brancos colocavam fogo nas casas de pessoas negras que ousavam viver perto deles
queimavam cruzes em seus gramados, atiravam pedras em suas janelas. O bairro
Lawrence era uma tentativa de mostrar ao mundo que diferentes etnias podiam viver em
harmonia.
Mas o experimento era sustentável? Os moradores das áreas próximas achavam que não.
O bairro Lawrence tentava fazer brancos, negros e asiáticos morarem lado a lado. Por
quanto tempo isso daria certo?
Enquanto as regras, irredutíveis e nada maleáveis, sem qualquer espaço para a
espontaneidade, enquanto draconianamente observadas, a bolha se manteve estável, a
comunidade de 24 famílias manteve a coesão.
Até perder.
A conclusão (a minha, ao menos, após 35 anos), é que apenas um sistema de poucas
(muito poucas) regras, onde essas (regras) sejam obstinadamente claras e objetivas, e
estimulem a espontaneidade, pode prosperar, se desenvolver e se regenerar
continuamente.
*Artigo originalmente publicado na coluna Geleia Urbana do Autor no Estado de Minas
Leon Myssior é Arquiteto e Urbanista, Diretor Executivo da Incorporadora CASAMIRADOR, e fundador do INSTITUTO DA CALÇADA. Autor.



