
Um velhinho corre à minha frente. Meu carro vai subindo a rua devagar, o trânsito congestionado, distraio-me observando o homem. Por que será que ele corre? Não vejo nenhum ônibus. Algum táxi? Nada. Agora ele reduz a marcha, quase pára, percebo claramente que respira fundo. Está cansado, o velho. Mas logo tenta correr, dando a nítida impressão de que o morro se inclina mais para impedi-lo. E agora vejo o ônibus pelo retrovisor, lá vem, estava atrás de um caminhão. Pelo espelho vejo o senhor se esforçando, mas o ônibus recolhe uma passageira e segue, os braços do velho caem, o sinal à minha frente fecha.
Passo então a observar o homem pelo retrovisor externo.
Onde será que ele iria com tanta pressa? Ao IPSEMG, ao INSS? Tem um maço de papéis em uma das mãos, e velhos sempre vão a esses lugares. Vai ver que ia pegar a fila do banco, é isto! Buscar o dinheirinho da aposentadoria.
Como ando pessimista. Quem diz que aquele senhor com aparência até boa, de tênis, roupas esportivas, não estaria saindo para sua caminhada, se dirigindo a uma praça? Não, não tem sentido, não haveria necessidade de alguém esforçar-se tanto para pegar um ônibus, sem compromisso, sem horário, para passear em uma praça.
São frações de segundos. O sinal luminoso à frente, o retrovisor do carro, o senhor idoso. Ah! Deixe-me voltar a olhá-lo. O carro ao lado atrapalhava-me a visão. Lá está. Mas… não! Uma senhora pára ao seu lado e o observa como se houvesse algo anormal. Logo um rapaz também pára e segura-lhe o braço. O velho está caindo. Puxo o freio de mão, penso em voltar, mas é loucura, o sinal está aberto para mim, os carros buzinam. Não há como. Preciso ir. Olho ainda uma vez ao retrovisor e já não consigo ver nada. São carros à direita, à esquerda, atrás. É a vida que segue sua marcha burra, mecânica, a um sinal que se abre, enquanto uma vida se extingue atrás.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, Nosso Alegre Gurufim e A Rebelião das Mal-Amadas.



