Sexo é Poder (por Luís Giffoni)

Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a tolice impera. Entre a tevê e o app, entre o céu e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para [...]

Existe muito modismo no campo material, mas no das ideias a tolice impera. Entre a tevê e o app, entre o céu e o inferno, entre o hedonismo e o estoicismo, há lugar para todo tipo de asneira, defendidas com argumentos racionais à primeira vista. Por mais estapafúrdia que seja a pregação, por mais contrária que seja aos interesses da pessoa, a estupidez sempre atrai seguidores, da limpeza étnica ao suicídio coletivo de uma seita em nome de uma nave espacial escondida atrás do rabo de um cometa. O quê, suicídio coletivo em nome de uma nave espacial escondida atrás de um cometa? Sim, aconteceu há alguns anos. 

Sandice, que não é privilégio de nosso tempo, quando investe contra a natureza humana, costuma buscar o respaldo divino para consolidar-se. Deus é excelente escudo para todo tipo de pregação. Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, o ascetismo era modismo, incensado como o melhor caminho para chegar até Ele. A carne significava a perdição: a mulher como um todo e o homem, da cintura para baixo, eram criações demoníacas. São Paulo julgou o celibato superior ao casamento. Dois influentes pensadores da época, Agostinho e Jerônimo, pregaram contra o ato sexual, tachando-o de repugnante e sujo. Na mesma linha de repúdio, Tertuliano considerou a transa uma vergonha; Arnóbio, uma nojeira; Ambrósio, uma podridão. Até parece que, para virar santo, precisam criticar o sexo.

A condenação sobreviveu através dos séculos, provocando desde a autocastração de Orígenes para evitar a tentação até, durante a Era Vitoriana, o conselho de alguns médicos aos maridos ingleses para se aliviarem com prostitutas, porque o orgasmo pago seria menos envolvente – menos pecaminoso, portanto – do que com as próprias esposas. Aliás, Freud, vitoriano de formação, debruçou-se com exagero sobre o sexo varrido para debaixo do tapete, reflexo de seu tempo. Libertou-se de certos totens e tabus, mas criou outros.

Resultado desse caquético modismo da abstinência: a culpa pelo ato sexual ainda hoje atinge milhões de pessoas. Todo psicanalista deveria acender, a cada dia, uma vela para Santo Agostinho e outra para São Jerônimo, agradecendo-lhes os clientes dilacerados pelo confronto entre um instinto desenvolvido pela natureza durante milhões de anos e uma filosofia incensada por meia dúzia de homens há alguns séculos. Tem mais. O celibato, abstinência levada ao paroxismo, é contra a vida. Se generalizado, mais louco que o suicídio de uma seita inteira em nome de um cometa, mataria toda a espécie. Outro paradoxo: ainda defendem o celibato no século 21. Da boca para fora e da porta das igrejas para dentro.  

Controlar o sexo dá poder. Muito poder. Manipuladores jamais abrirão mão do sexo para subjugar as pessoas. Nosso instinto jamais será removido, porém a insinuação de que é possível controlar o desejo aprisiona corações e mentes, e a frustração decorrente da não eliminação do impulso dá mais força ao manipulador. É a fórmula perfeita para manter o poder. Por isso a apregoam há milhares de anos.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio JabutiLuís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.sineteeditora.com.br/linha-de-neve

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