Questão doméstica (por Lindolfo Paoliello)

Passei a me divertir com os temas dos incansáveis diálogos .[...]

Comecei a fazer minha caminhada muito cedo e logo percebi que as mulheres são bem mais madrugadoras do que os homens. A praça estava cheia de senhoras, a maioria na faixa dos 50 anos, indo e vindo e falando, conversando muito, aumentando o ritmo da fala e dos gestos na proporção em que se empolgavam com o movimento da marcha.

Passei a me divertir com os temas dos incansáveis diálogos, sobretudo aquele travado por duas delas, uma gorduchinha, de faces muito rosadas, e outra esguia, com as pernas tortinhas, os pés muito grandes, que foi, aliás, o que me chamou a atenção na primeira vez em que passaram.

Essas duas senhoras, certamente “da nossa melhor sociedade”, como dizia a crônica social, destacavam-se entre as demais por fazer o giro da praça com maior frequência. E também falavam com ânimo incrivelmente maior.


Foi mais ou menos a seguinte conversa, ouvida entre uma volta e outra, às vezes quase adivinhada, outras vezes com o sentido prejudicado pelo fio da meada perdido:

— Eu acho assim: se a empregada resolve o problema da gente, então ela merece.

Decorre nova volta, e colho outro trecho do diálogo:

— A minha não atende. Coitadinhos dos meninos, não podem pedir nada na cozinha.

Na volta seguinte, a esguia vem empolgada:

— É, minha filha, mas quem fica com as crianças para a gente sair…

— Mas é um preço muito alto, Auxiliadora.

(Por que será que o preço é alto? Aguardo a outra volta).

— Um dia desses, até chorei. É muito atrevida.

Trechos colhidos a esmo em giros seguintes:

— Abono, por quê? Não dou abono coisa nenhuma.

— O Afonso não é bobo de se engraçar com ela.

— Foram dois abortos, você acredita?

— Não quero nem saber de licença-maternidade.

— Mas ela faz um bolo, Mariana…

— Que aviso prévio coisa nenhuma.

— Não, gente, o tempo dos escravos já passou.

Eu estava para encerrar a caminhada, meio distraído, quando elas passaram por mim, como um raio, e a baixinha deixou esta no ar:

— Às vezes acho que sou até comunista.

E acrescentou, limpando o suor do rosto:

— No bom sentido.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br

“Passei a me divertir com os temas dos incansáveis diálogos”.

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