
Em algum momento, muitos pais percebem a mesma coisa. O que antes era automático deixa de ser. Decisões simples passam a levar mais tempo. Pequenas tarefas ganham um peso inesperado. Situações cotidianas deixam de ser intuitivas.
Não é algo necessariamente visível por fora. A rotina continua, as crianças vão à escola, a vida segue. Mas, por dentro, algo não encaixa mais.
O que acontece quando o chão some
A cena aparece em diferentes contextos. Um pai participa de uma reunião escolar e sai sem entender completamente o que foi dito. Uma mãe tenta acessar o sistema de saúde e percebe que não sabe por onde começar. Em ambos os casos, não falta cuidado nem responsabilidade. O que falta é referência.
E, com isso, vem uma sensação difícil de explicar: a de estar deslocado dentro da própria vida.
Esse tipo de relato tem aparecido com mais frequência quando se fala de parentalidade, especialmente entre famílias que vivem fora de seus países de origem — mas não só. Muitos descrevem como sentir-se perdido como pai ou mãe, como uma perda de identidade na parentalidade. Não porque deixaram de ser capazes, mas porque o contexto onde essa capacidade fazia sentido já não está mais disponível.
A parentalidade, nesse cenário, funciona como um amplificador. Ela pede decisões o tempo todo, nem sempre com base clara. Quando isso se cruza com mudanças maiores — como uma migração, o nascimento de um filho ou alterações na dinâmica familiar — fica mais evidente o quanto a sensação de competência depende do ambiente. O que antes era intuitivo passa a exigir interpretação. Decisões que eram rápidas ficam mais lentas. E aquilo que parecia óbvio começa a depender de contexto.
O recorte das famílias no exterior
Para quem vive no exterior, isso aparece com mais nitidez. A ausência de rede de apoio, o contato com sistemas desconhecidos — educação, saúde, burocracia — e a barreira do idioma retiram camadas de familiaridade que normalmente sustentam o dia a dia.
Conheci uma mãe brasileira na Europa que descreveu a experiência de acompanhar a vida escolar da filha como “parcial”. Ela participa, observa, tenta acompanhar, mas nem sempre acessa o conteúdo com precisão. Sai das reuniões com anotações incompletas e a sensação de que parte da vida da filha está acontecendo fora do seu alcance.
Outro pai contou que percebeu a dimensão dessa mudança ao lidar com um problema de saúde do filho. Diante da situação, não sabia avaliar o que era urgente, qual caminho seguir ou que decisão tomar. Não era falta de preparo. Era a ausência de um sistema interno que, até então, funcionava sem esforço.
Esses relatos não são exceção. São a regra para quem cria filhos longe do lugar onde aprendeu a ser adulto.
O que a pesquisa tem a dizer
A autora [Jessica Gabrielzyk] (https://www.jessicagabrielzyk.com), que investiga o tema em [Parenting Unpacked] (https://parentingunpacked.com), descreve esse processo como algo que passa por etapas: sair, adaptar, construir novas bases e, em algum momento, estabilizar. Nem sempre de forma linear. Nem sempre de forma consciente. Mas com um ponto em comum: a percepção de que a identidade anterior já não responde do mesmo jeito. O gatilho muda. A experiência por baixo disso, não.
Seu livro, *Parenting Unpacked*, já está disponível na Amazon e vem sendo uma ferramenta importante para pais que vivem fora de seus países de origem. Nele, Jessica propõe um olhar generoso sobre essa experiência: não como falha, mas como reconfiguração.
O que está em jogo
A dificuldade, muitas vezes, está em não ter linguagem para isso. Sem um nome claro, a experiência costuma ser interpretada como falha individual, como se o problema estivesse na pessoa. Mas os relatos apontam em outra direção. Não é perda de capacidade. É reconfiguração.
A parentalidade hoje pede segurança em um cenário que oferece cada vez menos referências estáveis. E isso aparece rápido. Ao contrário do que se costuma sugerir, não é algo que se resolve apenas com informação ou orientação. Leva tempo. Exige reconstrução. E acontece enquanto a vida segue, enquanto as crianças crescem, as demandas continuam e as decisões precisam ser tomadas mesmo sem a mesma base de antes.
Por isso, a experiência de famílias no exterior não é uma exceção. É um recorte mais visível de algo maior. Quando o contexto muda de forma brusca, ele deixa claro um movimento que já estava ali, só que menos evidente.
Reorganizar quem você é
Em algum ponto, a parentalidade deixa de ser apenas sobre cuidar de alguém. Passa a envolver também a necessidade de reorganizar quem você é enquanto faz isso.
Talvez não seja falta de preparo. Talvez seja outra coisa. O cenário mudou, e o que funcionava antes simplesmente não se encaixa mais.
E talvez o primeiro passo não seja tentar encaixar de volta. Talvez seja olhar para o que se perdeu, reconhecer o que se ganhou e aceitar que a nova versão de si mesmo vai levar um tempo — e um novo ambiente — para ser construída.
Para saber mais
Se você vive essa experiência ou conhece quem vive, vale a pena conhecer o trabalho de Jessica Gabrielzyk – https://www.jessicagabrielzyk.com
Seu site, “Parenting Unpacked” – https://parentingunpacked.com, reúne recursos, reflexões e o livro de mesmo nome — já disponível na Amazon — que ajuda a dar nome e acolhimento a essa travessia silenciosa.
Porque, no fim das contas, não se trata de ser um pai ou mãe melhor. Trata-se de poder ser você mesmo dentro da parentalidade que você está vivendo agora.
Danielle Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.




