Qual a verdade sobre o poder, Brasília, coisas não ilegais, porém, imorais, ao ver das pessoas, e porque esse mundo é tão fechado, e seleto (por Roberto Carvalho)

Totonho é um personagem que foi parar em Brasília lá pelos idos de 80 e, desde então, nunca mais saiu desta cidade poder. Outro dia, proseando com ele numa [...]

Totonho é um personagem que foi parar em Brasília lá pelos idos de 80 e, desde então, nunca mais saiu desta cidade poder. Outro dia, proseando com ele numa mesa de boteco, ele soltou estas pérolas. Eu queria saber qual é a verdade sobre o poder, sobre Brasília, sobre aquelas coisas não exatamente ilegais, mas imorais aos olhos do povo, e por que esse mundo é tão fechado e seleto. Pedi para ele falar sem romantismo e sem teoria conspiratória barata. E Totonho, no alto da sua sabedoria de chão de bar, foi dizendo:

A verdade sobre o poder em Brasília – e em quase qualquer centro de poder do mundo – é menos cinematográfica e mais estrutural.

Primeiro, o poder raramente é ilegal. Ele é formalmente legal, mas moralmente questionável. Grande parte do que revolta as pessoas não é crime: é barganha política, troca de favores institucionalizada, influência econômica disfarçada de técnica, decisões tomadas longe do olhar público. Tudo isso costuma caber dentro da lei, porque a lei foi escrita – direta ou indiretamente – por quem já estava próximo do poder. O sistema não funciona fora da lei; ele funciona no limite ético da lei.

Segundo, Brasília não é o problema; ela é o espelho. A cidade virou símbolo, mas o mecanismo existe em capitais estaduais, grandes cidades, conselhos, consórcios, tribunais, autarquias, até em universidades e grandes ONGs. O centro do poder se protege criando linguagem técnica (difícil de entender), ritos formais (que afastam quem não domina o código), acesso seletivo à informação e decisões fragmentadas (onde ninguém parece responsável por tudo). Isso não é acidente. É design institucional.

Terceiro, por que o mundo do poder é tão fechado e seleto? Porque poder não gosta de imprevisibilidade. Quem entra precisa falar a linguagem certa, conhecer as pessoas certas, não “quebrar o jogo” e respeitar pactos silenciosos. Não é uma confraria secreta – é pior: é um ambiente socialmente treinado para se autorreproduzir. Quem questiona demais vira “ingênuo”, “radical”, “não confiável” ou simplesmente deixa de ser convidado.

Quarto, o imoral costuma ser apresentado como “necessário”. Frases comuns do poder: “É assim que funciona”, “Se não for assim, nada anda”, “Depois a gente corrige”, “É o possível”. A moral pública é sacrificada em nome da governabilidade, da estabilidade, do equilíbrio político. O problema é quando o “temporário” vira permanente.

Quinto, por que as pessoas sentem que “algo está errado”, mas não conseguem apontar o quê? Porque o jogo é difuso, técnico, fragmentado, burocrático. Não há um vilão claro. Há processos que beneficiam sempre os mesmos grupos. E quando tudo é “legal”, denunciar vira quase um ato filosófico, não jurídico.

Por fim, existe saída? Existe, mas não é simples nem rápida: transparência real (não só portais confusos), participação qualificada (não só audiência pública pró forma), controle institucional com gente preparada e, principalmente, educação política estrutural, não partidária.”

E eu, perdido nas rodadas de cerveja, fui sorvendo as filosofias do Totonho, no alto de sua sabedoria acumulada, dessa imaginação que pula da realidade para os palcos da vida.

Viva Totonho, filósofo das avenidas que não encontram botecos na nossa Brasília!

Roberto Carvalho é Político e Autor

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