Pecado Original (por Lindolfo Paoliello)

Não é no ato em si, mas na intenção que reside o bem ou mal moral [...]

“Todos pecaram”, diz a epístola de São Pedro aos romanos. “Todos pecaram”, repetirá o leitor, depois de ouvir o caso que vou contar daqui a pouco, não sem antes advertir que, na própria Bíblia, há indícios de que não é ponto pacífico que Deus tenha criado os homens para que vivessem atormentados, pela única razão de ter o primeiro ser humano comido de uma fruta proibida. Atente o leitor para o fato de que, no mesmo Gênese, onde está escrito que Adão morreria no dia em que comesse a maçã, está claro que ele viveu mais 930 anos e se viveu é porque Deus permitiu, depois de tê-lo ajudado a se vestir com uma túnica de pele.

Todos pecaram? Três amigos meus tomavam chope um dia destes em um bar quando apareceu uma mulher de um conhecido deles, bêbada a ponto de cair sentada no colo de um. Era uma mulher bonita e jovem, até onde se sabia vivia bem com o marido, e aquilo chocou os meus amigos. Mas ela estava mesmo disposta a se embriagar e, quanto mais bebia, mais abraçava cada um dos constrangidos companheiros de mesa. Não demorou muito o marido apareceu, resmungou uma desculpa e a levou para casa.

Só aí os três perceberam que cheiravam a perfume no rosto, nas mãos, nos cabelos; enfim, estavam impregnados de perfume. Comentaram, com aparente descontração, sobre o que é que iriam dizer em casa e o certo é que ficou a nítida impressão de que pediram a conta mais cedo que de costume.

Termina aqui o caso, como me foi contado por uma das testemunhas, em uma roda em que se comentavam as últimas fofocas da cidade. Eu é que vou além, levado pelo hábito de especular e estimulado pela curiosidade do leitor. O que é que aqueles três senhores teriam dito em casa?

“Não é no ato em si, mas na intenção que reside o bem ou mal moral”, concluíram os filósofos. Rodrigo, o primeiro a deixar o bar, sentiu uma fisgada ao entrar no carro, como se uma corrente elétrica o tivesse atingido na altura dos rins. Seu coração disparou, ele sabia que estava pálido. Era recém-casado, nunca havia passado pela experiência de justificar uma marca de batom na gola ou um perfume diferente, mas decidiu-se logo: aquela história ele não contaria, sua mulher não iria acreditar. Inventou uma outra, bem mais complicada, que ela também não aceitou. Discutiram durante uma ou duas horas e foram dormir em quartos separados, sua mulher ruminando como seria “a outra”.

Voltaire lembra que nunca se teve notícia de que os responsáveis pelos santos atos de fé da Inquisição se tenham reprovado por terem torturado ou matado aqueles que pensavam ou eram acusados de pensar de forma que não a deles. Faz esse registro para concluir que só temos a consciência do que nos é inspirado pelo tempo, pelo exemplo, por nosso temperamento e nossas reflexões.

Gilberto, o segundo dos amigos a ir para casa, é um carioca liberado, morou alguns anos na Europa e é casado com uma francesa. Ao chegar em casa, encontrou a mulher deitada, esperando por ele. Ao tirar a camisa, um forte perfume ficou no ar, mas ele nada disse e ela nada perguntou. Fizeram amor pelo resto da noite, ela sempre tentando imaginar como seria “a outra”.

O orgasmo, ensinou Wilhelm Reich, faz esquecer, muda modos de pensar, vira a cabeça das pessoas. Rubinho, o último a deixar o bar, sem nunca ter lido Reich, resolver apelar para o orgasmo. Em outras palavras: já que sua mulher não iria mesmo acreditar naquela história, não iria pagar pelo que não tinha feito. Chegou em casa horas depois, pisando em nuvens, deu um beijo na mulher e lhe contou a verdade: a mulher do Beto tinha pegado um pifão e dado um vexame. Sua esposa deu-lhe um sorriso lindo e disse que já sabia, o Beto tinha telefonado se desculpando. Ele não devia era ter chegado tão tarde.

Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O País das Gambiarras, A rebelião das mal-amadas e acaba de lançar, pela Editora Del Rey, A guerra de cada um. Já na Amazon: https://www.amazon.com.br

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