Para evitar a herança maldita (por Eduardo Fernandez Silva)

Quase sempre, quando um novo governo assume o leme, divulga ter recebido do antecessor uma herança maldita. No entanto, continua a [...]

Quase sempre, quando um novo governo assume o leme, divulga ter recebido do antecessor uma herança maldita. No entanto, continua a perseguir basicamente os mesmos objetivos e, no fundo, a agravar a herança mais que maldita, terrível, que deixará aos mais jovens. Nem todos creem que ainda temos tempo de alterar o rumo e evitar o pior.

O pressuposto de quase todos os governantes – cujo uso de criativos marqueteiros leva a maioria a crer que a direção está correta! – é que o crescimento do PIB beneficiará a todos! Porém, ocorre que, por um lado, como já ultrapassamos a maioria das fronteiras planetárias, temos necessidade urgente e obrigação de reconhecer que aquilo que pode ter sido verdade num planeta vazio não o é mais, num planeta cheio. Por outro lado, o rumo trilhado pela humanidade nos últimos séculos, apesar de muitos êxitos (analgésicos, água encanada e outros), não foi capaz de dar vida digna a 80% dos humanos, pois tal é a proporção dos nossos semelhantes que vive com renda equivalente a um salário-mínimo brasileiro, muitos em situação análoga à escravidão! O pobre camponês europeu, ou indiano, do século XVII, não ficava quatro horas diárias chacoalhando num veículo para ir e voltar do trabalho, como ocorre hoje com bilhões de indivíduos! Além disso, à época, respirava ar puro, bebia água limpa e, como não consumiam demasiado, apenas para que alguns lucrem, seus dejetos eram dissolvidos na natureza sem ultrapassar fronteiras planetárias.

Estamos, literalmente, num mundo novo, sem perspectiva de encontrar outra casa onde morar e, se quisermos viver em paz, obrigados a dar, àqueles 80%, vida digna, sem continuar a depredar a biosfera, base da sobrevivência! Como?

A difícil e ainda hoje desconhecida resposta correta a esta questão é a chave para a sobrevivência, em paz e prosperidade, de nossos netos e bisnetos. Penso que a construção desse novo caminho envolve, por um lado, total prioridade a dois objetivos: primeiro, suprir necessidades básicas dos 80% e, segundo recuperar ecossistemas degradados.

Para suprir necessidades básicas estas devem ser definidas em nível local; no caso do Brasil, onde a área e a população média dos municípios – menor unidade de governo eleito – é de 1.500km2 e quase 39.000 pessoas, a definição talvez deva ser em nível de bairro; na França, onde o território médio com governo local eleito é de 18km2 e cerca de 2.000 habitantes, talvez esta possa ser a unidade definidora. Profundas mudanças institucionais, por óbvio, são necessárias.

 A substituição do objetivo “fazer crescer o PIB” pelo “suprimento das necessidades básicas com restauração dos biomas” implica, ainda, redirecionar o sistema de incentivos hoje vigente na quase totalidade dos países. A ideia “drill, baby drill” é contrária ao bem-estar dos seres vivos. A distribuição deve prevalecer sobre a acumulação. A prioridade deve ser a durabilidade dos produtos e não seu precoce descarte para ampliar vendas; o desenvolvimento tecnológico deve mirar não o crescimento dos lucros e sim o “suprimento das necessidades básicas com restauração dos biomas”. A democracia deve substituir a atual demôniocracia. A ideia de que deixar herança é erro de cálculo, que implica individualismo, esbanjamento e desperdício, deve ser substituída pela busca de uma essencial herança para a coletividade, com expansão das possibilidades de os biomas contribuírem para o bem-estar dos seres vivos.

Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.

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