Palavras trocadas: a linguagem como instrumento de ocultamento da realidade (por Roberto Carvalho)

No Brasil contemporâneo, observa-se um fenômeno linguístico preocupante: o esvaziamento semântico de termos fundamentais para [...]

No Brasil contemporâneo, observa-se um fenômeno linguístico preocupante: o esvaziamento semântico de termos fundamentais para o debate público. Palavras que carregam significados precisos nos dicionários são propositalmente ressignificadas no uso corrente, gerando confusão e dificultando a compreensão da realidade. Essa distorção não é acidental — opera como mecanismo de poder que obscurece posições políticas, econômicas e sociais.

Tomemos como exemplo o adjetivo “radical”. Etimologicamente, remete à ideia de ir à raiz, aprofundar-se na essência das questões. No discurso cotidiano, contudo, passou a designar pejorativamente o intolerante, aquele que recusa o diálogo. O que deveria evocar densidade intelectual transformou-se em estigma.

A manipulação vocabular é ainda mais explícita no espectro político. Indivíduos e grupos autodenominados “de centro” frequentemente alinham-se a pautas historicamente associadas à direita. “Centro-esquerda”, por sua vez, tornou-se rótulo para posições conservadoras, enquanto a autointitulada “esquerda” corresponde, na prática, a uma centro-esquerda moderada. A “extrema-direita”, expressão que designa correntes radicais, é usada para nomear a direita convencional. Há, nesse jogo de nomenclaturas, uma estratégia de embaçamento ideológico: ao embaralhar os significantes, desmobiliza-se a identificação política e dificulta-se a crítica consistente.

Esse mesmo artifício linguístico atravessa outras esferas. O “economês”, jargão técnico dos economistas, converte fenômenos complexos — mas acessíveis — em enigmas indecifráveis ao cidadão comum. Em vez de esclarecer, a linguagem especializada ergue muros. O simples mortal fica refém de uma retórica que, em vez de explicar, complica. Ora, o verdadeiramente genial é o simples, aquilo que todos compreendem sem mediações.

Nenhum exemplo ilustra melhor essa potência do simples do que a arte de Charles Chaplin. Sem proferir uma palavra, ele expressava sentimentos universais, denunciava arbitrariedades e escancarava injustiças sociais. Sua comunicação não dependia de códigos herméticos: era direta, límpida e, por isso mesmo, revolucionária.

Palavras não são etiquetas inertes. Elas têm vida, carregam história e produzem efeitos concretos. Constituem uma das mais notáveis ferramentas que o ser humano desenvolveu para arquitetar o pensamento e construir a vida em sociedade. Quando seu significado é propositalmente corrompido, não se compromete apenas a clareza da comunicação — compromete-se a própria capacidade de pensar o mundo e transformá-lo.

Urge, portanto, restaurar a integridade das palavras. Reocupar os termos, devolver-lhes o sentido original, desmascarar os usos que visam confundir. Pois, como ensina a tradição, nomear corretamente as coisas é o primeiro passo para, sobre elas, agir com consciência.

Roberto Carvalho é Político e Autor

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