O que é uma crônica (por Luís Giffoni)

Levanto-me, a pergunta insiste: o que é mesmo uma crônica? [...]

Começo de tarde no centro da cidade. Sol de verão. Asfalto escaldante. Barulho de motores, buzinas e camelôs. Cheiro de combustível queimado. Pessoas se atropelam no passeio. Um homem de terno vende Jesus Cristo em módicas contribuições para uma igreja. Ao lado, uma senhora anuncia bilhetes de loteria. Um pedinte estende a mão. Um grevista xinga o presidente.

Caminho observando a diversidade humana. Uma questão, levantada por um amigo, me persegue desde a manhã: o que é uma crônica? Não sei. A ignorância me incomoda. Exerço um ofício que desconheço.

Compro uma caixa de chicletes de um garoto que jura alimentar a família, pego um dos quadradinhos brancos, levo-o à boca. O gosto de menta inunda as papilas. Descubro o sinal de pedestres aberto. Preciso atravessar a larga avenida. Apresso-me. Ando pela faixa, de olho nos carros à direita. Um deles rosna ao acelerador, qual um cão contido pela frágil cerca de luz vermelha. Devo apertar o passo.

Entre uma e outra passada, ocorre-me que tenho todos os sentidos em alerta. Percebo sons, cores, odores, gosto, o toque dos pés no chão, até o sentido das metáforas. Na infinitude de um átimo, penso no cérebro. Imagino-me dentro dele. Os estímulos chegam de todos os lados, são processados em áreas diferentes, do occipital ao frontal, no entanto eu não me percebo dividido. Sou um só, consolidado, como se possuísse um único sentido. A ideia me leva em frente. Deve haver um centro integrador dos estímulos, talvez tenhamos uma matriz da consciência, do eu, do ego, do self, uma cozinha na qual todos os neurônios têm um pezinho. Talvez exista um superneurônio da subjetividade. Talvez o cérebro inteiro exerça a função de ator, diretor e observador simultâneo do filme da consciência e nos iluda com a impressão de unicidade. Talvez é uma boa palavra para remediar minha ignorância.

Em outro lampejo, suponho que, por causa desse centro sintetizador, buscamos sentido nos eventos mais díspares. Faz parte da fisiologia cerebral unificar o mundo, alcançar uma Teoria de Tudo ou a Verdade Última. E também rir ou lamentar a condição humana. Rememoro uma piadinha recém-ouvida: “eu sempre pensei que o cérebro era o principal órgão do corpo, até descobrir quem me fez pensar isso”.

O sinal fecha, os pit bulls mecânicos rosnam ainda mais alto e partem para o ataque. Começo a correr, olhando para trás, com medo da fúria ao volante. Ao pisar no meio-fio, meu pé tromba numa base de concreto abandonada pelo departamento de trânsito, perco o equilíbrio. Danço um balé de bêbado, o corpo ora à esquerda, ora à direita. Solto patadas sobre o chão, no inútil esforço de manter-me em pé. Aterrisso junto a vários transeuntes. Minhas mãos, joelhos e queixo ficam esfolados. Alguém começa a dar uma gargalhada, as testemunhas deixam-se contagiar. Morro de vergonha. E raiva. E dor. Sinto que o coração é o centro de tudo.

Levanto-me, a pergunta insiste: o que é mesmo uma crônica?

Luis Giffoni é Escritor e Membro da Academia Mineira de Letras

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