
Claro que o “valor” ou a “qualidade” de uma obra de arte, de uma poesia, de uma música ou de um livro não deve estar imbricado em eventual potencial que eles tenham no sentido de melhorar o mundo, mas é incomensurável a quantidade de seus autores que, munidos apenas de cinzéis, pincéis, tintas, papéis, partituras ou instrumentos musicais foram mais proficientes do que todo o dinheiro do mundo, todas as vãs rezas e orações e todas essas panaceias que só servem para iludir os que sofrem, mas que não mitigam os seus sofrimentos.
É claro que eu, embora um humilde e pouco inspirado criador de textos, bem que eu gostaria de somente escrever tendo por fundo um desenho infantil de uma casinha, uma árvore com um passarinho nela pousado e um solzão bem amarelo e cercado por nuvenzinhas, mas cada vez menos consigo fazer isso, escutando gritos de mulheres sendo espancadas ou assassinadas até mesmo por namorados e maridos, crianças vítimas de pedófilos, negros e pobres alvos de vis preconceituosos e, sobretudo, vendo Ferraris, iates e festas nababescas, enquanto noventa por cento do Brasil mal consegue levar para casa o pão de cada dia.
E o pior é que o pouco que lhes sobra – se sobra – deles é tomado a título de dízimos!
Carlos Mota Coelho é Escritor. Foi Deputado Federal e Procurador Federal. Autor de vários livros.




