
Imagine uma larga avenida apinhada de gente, velhos prédios cinzentos que já foram chamados de “arranha-céus”, coloque por perto um terminal rodoviário e uma estação ferroviária e terá aí o centro de uma cidade. Belo Horizonte não foge à regra. É claro que a cidade cresceu e o centro se transformou. Vejo aqui por uma foto antiga de meu pai com dois amigos, de jaquetão e chapéu, passando em frente ao edifício Sulacap. Era chique ir à “Avenida”. A gente tinha de se aprontar, pôr sapatos novos e passar brilhantina nos cabelos cortados na moda “Príncipe Danilo”.
Aqui como em outras cidades, o centro degradou-se. Envelheceu, envileceu-se. Lembra pivete, camelô, mendigo, barulho. O centro é feio.
Nesse lugar sem dono, as pessoas são imigrantes, passantes – transeuntes. Salvo um ou outro tipo popular que faz ponto em uma esquina e fica ali semanas, meses até partir para outra freguesia.
O “Sombra” é um desses tipos. Surgiu não se sabe de onde, parou na Praça Sete e fica por ali divertindo-se e divertindo, imitando as pessoas que passam, no andar, nos gestos, na expressão. Gervásio Horta, que entendia dessas coisas do centro da cidade, diria que aquele homem é um artista da pantomima. Seria então um pantomimo, ou pantomineiro, arre!
Pela Praça Sete passam trabalhadores para tomar o segundo ônibus para a fábrica ou para a residência, por lá circulam ou estacionam aposentados, cuja calma contrasta com office-boys e com executivos que entram ou saem dos bancos e prédios de escritórios.
Meu amigo “X” é um desses heróis que enfrentam diariamente o centro da cidade para tratar de seus afazeres. É um pequeno industrial que trabalha com subprodutos aproveitados do algodão, o que lhe valeu o apelido de “Estopa”. Ele vive a luta do pequeno empresário, no fogo cruzado entre o Fisco, o sindicado dos trabalhadores e a flutuação do mercado. E faz de tudo, inclusive os negócios bancários, o que torna um frequentador dos bancos do centro.
O “Sombra” pegou “Estopa” como vítima. Ele saía do Banco, o artista ia atrás seguindo seu andar desajeitado e batendo os braços como ele. Parava no Café Nice, sua sombra parava e bebia com ele um cafezinho. Entrava na livraria Pax para um “papo” com Greudo Catramby e a sombra gesticulava, sorria, franzia o cenho.
Um dia “Estopa” saiu de um banco, o “Sombra” o seguiu. Várias pessoas pararam. Começava a festa. A vítima apressou os passos. O “Sombra”, atrás. Nervoso, deixou cair a pasta. O gesto de imitação foi perfeito. “Estopa” via o rosto zombeteiro das pessoas, ouvia os gritos de gozação, suava, franzia o punho.
A perspectiva é uma coisa fascinante. Sob pontos de vista diferentes, as coisas mudam de figura em um piscar de olhos. De repente, “Estopa” parou. Virou-se. O outro imitou. Fingiu que se virava novamente, e o “Sombra” deu de frente com ele.
– Você vai se dar mal comigo.
– ?
Várias pessoas acompanhavam a cena. Divertiam-se. Estimulavam o imitador.
“Estopa” deu um passo, dois, brecou. O outro estancou. “Estopa” levou as mãos às costas, baixou as calças, mostrou o bumbum, suspendeu, tudo em um segundo. O “Sombra” ouviu uma gritaria, palmas, viu o rosto de “Estopa” crescendo junto ao dele:
– Imita, seu panaca!
Lindolfo Paoliello é cronista, autor de O país das gambiarras, Nosso alegre gurufim e A rebelião das mal-amadas.



