
Gosto de um fim de mundo, sobretudo os que ficam no meio de montanhas geladas. Nesses cantinhos perdidos, longe de tudo, sempre encontro beleza, estranheza e novidade. Tropeço em paisagens fora dos cartões postais, descubro segredos da Terra, conheço a diversidade da vida. Os odores são diferentes, os sons assustam e encantam ao mesmo tempo, a comida surpreende pelos ingredientes, a simpatia da gente local cativa.
Um desses fins de mundo é o Ladakh, na Caxemira, a parte mais setentrional da Índia. Ali o Himalaia se divide em duas cadeias, entre as quais passa o Rio Indo. Andar pela região, às vezes a cinco mil metros de altitude, significa mergulhar no passado – ou no futuro. Tive ora a impressão de voltar à metade do século 20, ora de viajar a Marte. Bem poderia estar numa cidade mineira, onde ainda se vendessem farinha de trigo, arroz e açúcar em grandes sacas à porta do armazém, ou no cenário poeirento de Guerra nas Estrelas.
O Ladakh é árido, exceto à margem do rio Indus, onde as árvores crescem entre os pedregulhos trazidos pelas geleiras, e as corredeiras transformam a canoagem em descarga de adrenalina. A chuva e a neve caem com tanta raridade que os telhados são feitos com gravetos unidos por barro, frágil pau a pique. A cobertura derreteria se enfrentasse uma de nossas tempestades de verão.
No trabalho da terra, as mulheres cantam músicas próprias para cada estação, do plantio à colheita. Nos monastérios budistas, de tardinha, enormes trompas emitem o mantra ohm, sopro da alma que se reflete na cordilheira, e o eco conclama o vale inteiro à paz. Aliás, os monges rezam durante todo o dia pela paz no mundo. Bem, pelo menos tentam. E o fazem há muito tempo. Alguns de seus pergaminhos pacifistas datam do século 13, disseram-me. Examinei vários, sem entender os garranchos da escrita, que lembram palitos de fósforo em parada militar. Num gesto de cortesia, o lama me ofereceu chá com leite de iaque. Sim, tomei a bebida, mas não a recomendo.
Outro chá, no entanto, foi puro deleite. Aliás, puro, sem leite. Caminhava numa trilha, quando senti o perfume de pão quente. Delicioso. Originava-se numa casa de chá, quer dizer, era o que dizia a plaquinha na porta do cômodo pequeno, de terra batida. Lá dentro, vi o fogão à lenha com a panela da bebida fervendo, um forno cônico de metal enterrado no chão, cercado de brasa – e alguns ladakheanos, sentados de cócoras. Nenhuma mesa, nenhuma cadeira.
Enquanto saboreava o pão crocante, massa semelhante à do pastel, coberto de sementes de papoula, puxei assunto. Perguntaram-me de onde vinha. Jamais tinham ouvido falar de Pelé, de futebol, do Brasil. Éramos, para eles, um fim de mundo.
Um dos presentes indagou o que me atraíra ao Ladakh. Olhei para fora. O sol se punha sobre o vale, o Indus adquirira a tonalidade turquesa dos glaciares, a cordilheira escalava o céu até a neve nos cumes se misturar ao azul, mulheres cantavam o término da jornada no campo, a lua cheia era uma hóstia atrás do perfil das montanhas. Nesse instante, a trompa do monastério soou, e o Himalaia reproduziu o mantra até o horizonte.
Senti a força do lugar, tão intensa que me sobreveio uma precoce saudade da vida. Aquele momento logo passaria; a imagem, não. Estava explicada minha atração. O fim do mundo faz fronteira com o paraíso. Ou estaria o paraíso num fim de mundo?
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.sineteeditora.com.br/linha-de-neve




