O canto que o medo calou (por Aldeir Ferraz)

Dizem que o conto não é para ser dissecado pela lógica, mas para ser sentido pelo encanto.[...]

Dizem que o conto não é para ser dissecado pela lógica, mas para ser sentido pelo encanto.

E foi exercendo minha curiosidade sobre o tempo das “antigas” que me vi mergulhado em histórias de santos e benzedores — gente que curava o corpo olhando para a alma, movida apenas por uma missão divina, sem o brilho sujo das moedas que hoje seduzem os aproveitadores da fé.​

Naquela época, principalmente nos grotões da zona rural, a doença era um mistério extracorpóreo. Quando a benzeção não bastava e a morte vencia a lida, a derrota não era de um só; era de toda a comunidade.

O luto exigia rito, e o rito exigia símbolos.​Minha mãe guarda na memória o desenho desse anúncio. O infortúnio não chegava por cartas, mas a galope. Um homem montado a cavalo cortava as distâncias, indo de porteira em porteira avisar que um dos nossos havia partido. Às vezes, as aves agorentas, com seu grito seco, chegavam antes do cavaleiro, como se o próprio céu quisesse adiantar o luto.

​Imediatamente, o ferro da enxada era deixado de lado e o arado parava no meio do sulco. O povo se ajuntava. Enquanto se velava o corpo sobre a mesa, o som que preenchia a noite não era apenas o das orações, mas o das batidas de martelo. Não havia o luxo frio das funerárias; a última morada era feita na hora, sob medida.

O marceneiro da comunidade cortava as tábuas, ajustava o tecido — de preferência o roxo, cor da saudade solene — e as mãos colhiam as flores do mato para adornar a despedida.​

O cortejo era uma procissão de poeira e suor. Homens e mulheres se revezavam no peso do caixão, seguindo a pé por léguas de estrada. Atrás deles, o movimento era lento: cavalos em passo de marcha e o carro de boi, com suas rodas pesadas, acompanhando a fila.

​Certa vez, intrigado, perguntei o que muitos ainda se perguntam: se o carro de boi estava ali, por que não poupar o esforço e carregar o defunto sobre ele? A resposta veio com a sabedoria que não aceita questionamento, apenas o respeito ao invisível:​

— Carro de boi que leva defunto, meu filho, perde a voz. Ele não canta. E se o carro não canta, os males não se espantam. Eles ficam ali, rondando a gente.​

Assim, o defunto seguia nos braços dos vivos, para que o gemido das rodas de madeira continuasse a espantar as sombras do caminho, garantindo que o morto partisse e o mal não encontrasse morada entre os que ficavam.​

Aldeir Ferraz é Político e Escritor

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