
Acordamos todos os dias com uma gramática decorada: conquistar, adquirir, expandir.
Em Ubá, como em tantos outros cantos onde a natureza resolveu retomar seu espaço com fúria, essa gramática foi subitamente rasgada. O “Capitalismo Sentimental” que tanto nos vendem nos comerciais — aquele das famílias sorridentes em carros brilhantes e chaves de casas novas balançando no ar — parece não ter tradução para o dia seguinte ao desastre.
O esforço de uma vida inteira, muitas vezes medido em suor, noites mal dormidas e privações, é algo sagrado. O sujeito que sonhou com a própria empresa, que financiou o carro para trabalhar ou que ergueu as paredes da casa própria, não estava apenas acumulando tijolos ou metal. Estava acumulando dignidade.
Mas aí vem a água. E a água não escolhe ideologia; ela apenas leva.
A grande ironia — e talvez a grande tragédia moral do nosso tempo — é que o sistema que tanto incentiva o apetite pelo “ter” é o mesmo que sofre de uma amnésia conveniente na hora da perda.
O capitalismo é um mestre em seduzir o sonhador, mas um péssimo ombro amigo para o sobrevivente.
Fica a pergunta que ecoa entre as ruas limpas a duras penas:
− “Onde está o sentimento dos que lucram com o sonho alheio”?
Os bancos, que celebraram cada parcela paga com o rigor de um relógio suíço, agora se calam ou se escondem atrás de algoritmos frios.
Se o suor do empreendedor é o combustível que movimenta a engrenagem financeira, não seria justo que, no momento da queda, essa mesma engrenagem parasse para oferecer a mão, em vez de continuar girando para esmagar o que restou?
Seria o momento de as instituições serem menos “mercado” e mais “gente“. Reconhecer que o “ter” foi destruído, mas o “ser” ainda está ali, tentando se levantar.
Continuar sendo algoz de quem já perdeu tudo para a natureza não é estratégia de negócios; é falta de humanidade mascarada de eficiência.
Em Ubá, entre reflexões e reconstruções, o que se espera não é caridade, mas uma justiça que entenda que nenhum CNPJ ou CPF deveria ser obrigado a pagar juros sobre o entulho.
Se o capitalismo quer ser chamado de “sentimental“, que comece a aprender a sentir a dor de quem ficou sem nada.
Aldeir Ferraz é Autor de Ubá/MG



