
A história oficial costuma ser escrita em mármore solene, nomes de generais e datas de batalhas que mudaram o mapa do mundo, mas a vida real, aquela que realmente nos define, pulsa mesmo é no rastro do que é pequeno e quase invisível.
Recentemente, a descoberta de um bilhete de amor de dois mil anos, gravado em uma parede de Pompeia, nos lembrou que a literatura, antes de ser um objeto bem acabado nas estantes, é um sussurro urgente de quem não aceita o esquecimento.
Enquanto o Vesúvio soterrava a cidade em uma fúria de fogo e cinzas, aquele traço de afeto permanecia ali, protegido pelo próprio desastre, aguardando pacientemente por vinte séculos para ser lido novamente por olhos estranhos.
É o triunfo absoluto do efêmero sobre o eterno, um lembrete de que um “eu te amo” riscado no reboco pode ter mais força que a fundação de um império.
Pompeia não era feita apenas de templos e colunas; era o mural social de uma gente que falava através dos muros, transformando o rústico em poesia cotidiana muito antes de o papel ser um privilégio de muitos.
Aquele autor anônimo, ao riscar a pedra com a ponta de um prego ou de um objeto pontiagudo, não sabia que estava redigindo uma das páginas mais bonitas da resistência humana: aquela que se recusa a morrer junto com o tempo.
Esse grafite ancestral é a prova de que a necessidade de narrar o que sentimos é um instinto primário, uma forma de “literatura de rua” que ignora as normas gramaticais para focar na verdade do estômago.
Hoje, nossas declarações flutuam em nuvens digitais que podem evaporar ao toque de uma tecla, enquanto o desconhecido de Pompeia precisou de pedra, suor e risco para imortalizar um sentir, provando que o peso da palavra aumenta quando ela exige esforço para existir.
Essa mensagem nos faz mergulhar no que existe entre as linhas da arqueologia tradicional. O que aquele autor sentia enquanto o céu escurecia? Seria a urgência de quem sabe que o tempo é curto ou apenas o tédio apaixonado de uma tarde de sol?
A beleza reside justamente no mistério de não sabermos quem eram os amantes, mas reconhecermos perfeitamente o sentimento. Há uma ironia poética e profunda no fato de que a mesma catástrofe que paralisou a vida foi a que selou o afeto para a posteridade, transformando cinzas em um invólucro de eternidade.
A literatura, em sua essência, nada mais é do que esse gesto desesperado de alguém que, diante da brevidade da existência, decide que sua voz merece habitar o amanhã, nem que seja através de uma rachadura na parede.
No fim das contas, a descoberta em Pompeia é um espelho para os nossos próprios legados.
Ela nos convida a pensar o que estamos escrevendo hoje e o que restará de nós quando o barulho da nossa era silenciar. Talvez a grande lição desse bilhete bimilenar seja a de que as grandes obras-primas não estão apenas nos museus, mas nos gestos miúdos de cuidado e na coragem de registrar o que nos move.
As cinzas do mundo passam, os monumentos se esfarelam e as glórias se apagam, mas as entrelinhas da alma permanecem intactas. Elas provam que, não importa o milênio ou a tecnologia, o coração humano não mudou de endereço e continua buscando, na escrita, uma forma de não ser apenas poeira.
*Artigo originalmente publicado no Diário de Taubaté e Região
Danielle Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.



