
Lá pras bandas de Braz Pires, onde o café vira prosa, conheci o Sr. Zé Raimundo, de mão firme e mente astuta. O homem no passado, em lombo de bicho bravo ganhava seus trocados.
Dizia ele, com o tempo já marcado no semblante:
– “Amansei muito burro bravo, desses de dar calafrio!”
Também capava porco e cavalo, era mestre e era constante. Mas com gente – ele jurava:
– “Nunca capei, nem capo.”
Dentre todos os “causos”, um ele guarda na memória: um animal de Ubari, distrito de Ubá, que de tão brabo era um furacão.
Nenhum caboclo da terra conseguia cantar vitória, até que o Zé chegou junto, com o pé firme na carcaça do bichão.
Foram três dias de poeira e de sol quente; foram três noites de vigília e de atenção; o burro dava pinote, bufava, mostrava o dente, mas o Zé, feito carrapato, não arredava do lombo e nem beijava o chão.
Diz ele que de pulo em pulo, de pinote em pinote o burro e ele se entendiam sem muita complicação.
Na manhã do quarto dia, o oponente se rendeu, de orelha baixa e mansinho, feito bicho de estimação.
O fazendeiro, espantado, logo o serviço recebeu: o trote era de seda, fruto de muita marcação.
Mas o povo, que gosta de aumentar um ponto na vida, diz que o Zé já laçou até a tal da Mula sem Cabeça.
Perguntei a ele, curioso, sobre essa lenda temida, e ele me confirmou, sem mudar de cor:
– “Mas Zé, como é que laça o que solta fogo no pescoço? O couro não queima? A corda não vira carvão?”
Ele deu um riso de lado, ajeitou o osso do pescoço, e soltou a resposta que encerra qualquer discussão:
– “Meu filho, pra esse problema eu já tinha a solução. Meu laço é de puro aço e aço, o fogo pega não!”
Aldeir Ferraz tem, dentre seus atributos, ser Poeta e Autor em Ubá/MG



