
O ano só começa de verdade quando toca o sinal da escola. Depois das férias, a rotina tenta se encaixar de novo, mas vem com um peso diferente no peito. Para nós, pais, a volta às aulas é um alívio que vem acompanhado de uma saudade antecipada. Um sentimento duplo que me pega toda vez, especialmente agora com meu filho de cinco anos.
As férias foram uma maratona. Trabalhar em casa com uma criança pequena é um exercício de invenção diária. A sala vira castelo ou pista de carrinhos, a cozinha vira campo de futebol, e você, de repente, é o animador oficial. Conciliar reuniões, prazos e a demanda constante por “o que vamos fazer agora?” cansa a alma. Confesso: anseio pela ordem, pelo silêncio que permite um pensamento inteiro, pelo retorno ao meu próprio ritmo.
Mas nesse cansaço, viveu uma doçura única. As férias nos deram o tempo lento que o ano não permite. Foram tardes de descobertas, histórias inventadas no sofá, um convívio sem pressa. Meu filho foi meu pequeno companheiro de todas as horas. Ao vê-lo crescer nesses dias, sinto que, quando ele voltar para a escola, vou estranhar a quietude da casa. Vou sentir falta do seu “olha, mamãe!” constante.
A verdade é que ambos os tempos são preciosos e necessários. Para uma criança pequena, as férias são o terreno da criatividade sem regras, onde o tédio vira brincadeira e o vínculo se fortalece na simples presença. É um período de desenvolvimento essencial, fora dos muros da instituição. No entanto, a rotina escolar também é fundamental. Ela oferece estrutura, segurança, socialização e o prazer da conquista pessoal. A escola é o primeiro mundo que a criança habita por si só, e isso é bonito de se ver.
Esse balanço entre o caos criativo das férias e a estrutura benvinda da escola é a coreografia da vida com filhos. Não se trata de escolher um lado, mas de reconhecer o valor de cada um. A poesia está na transição, no “até logo” do portão e no “como foi?” do reencontro. A beleza mora no contraste: é a saudade do tempo livre que nos faz aproveitar melhor as horas juntos depois da aula, e a ordem da rotina que nos dá fôlego para sermos pais mais presentes nos fins de semana.
No fim, seguimos nesse ciclo. Ensinamos os pequenos a navegar entre a liberdade das férias e o ritmo do aprendizado. E, no processo, reaprendemos nós mesmos a valorizar o caos e a ordem, o ruído e o silêncio, a despedida e o abraço. É nesse vai e vem que a vida familiar ganha seu verdadeiro ritmo, feito mais de sentimentos misturados do que de certezas absolutas.
*Artigo originalmente publicado no Diário de Taubaté e Região
Danielle Balieiro Amorim é Jornalista, Escritora e Ghost-Writer. Na Accenture, desenvolveu expertise em Comunicação, Gestão de Pessoas, PMO, Treinamento e Desenvolvimento, entre outras áreas. Escreve duas colunas semanais para o jornal Diário de Taubaté e para revistas brasileiras nos Estados Unidos. Tradutora dos idiomas Inglês, Português e Espanhol. Autora do livro infantil “As Aventuras de Ximin em: Floresta Mágica”. Podcast para crianças no Youtube: “Contos para Sorrir”.



