COLUNA RONALDO HERDY

Muito além dos acordes

Os jingles políticos sempre foram importantes ferramentas eleitorais. Já não têm o grande poder de conversão que um dia ostentaram, mas seguem cumprindo um papel decisivo: grudar na cabeça do eleitor como chiclete em sola de sapato. Em 2026, estarão presentes, novamente. A aposta não é tanto convencer, e sim provocar reconhecimento emocional. Quem faz jingle hoje sabe: ele não ganha eleição sozinho, mas quando acerta o tom, ninguém esquece.

O compositor João Andrade, sócio da Base Sonora, diz que tratar o jingle como música isolada é erro de principiante. “Hoje ele precisa ser pensado como um sistema”, afirma. Há o jingle de lançamento, o principal, as variações para rua, interior, internet – cada peça entrando em cena na hora certa. Quando isso não acontece, a melodia até toca, mas não fica.

A empresa de Andrade, instalada no Rio de Janeiro, já emprestou seus refrões a políticos de todos os matizes ideológicos – de Paulo Maluf a Guilherme Boulos, passando por José Serra, Ciro Gomes, Fernando Haddad e Dilma Rousseff, entre outros. Prova de que, no mercado do jingle, convicção política não costuma rimar com exclusividade.

Ao CAPABRASIL, Andrade revelou que aposta que os ritmos fáceis, cantáveis e com identidade regional deverão dominar as campanhas políticas de 2026. E faz um alerta pouco ouvido nos comitês: “jingle não funciona quando lista virtudes demais. Isso gera desconfiança”. Para ele, coerência vale mais do que elogio em excesso. Quem busca reeleição pede um tom; quem tenta mudar de rumo, outro. Em todos os casos, conhecer o candidato, a região e as pesquisas não é detalhe – é fundamento.

As plataformas digitais, claro, mudaram o jogo. O jingle deixou de ser peça única e virou produto modular, pensado para cortes, repetição e circulação rápida. Ainda assim, segundo Andrade, as eleições de 2024 mostraram que rádio e televisão seguem fortes, especialmente quando trabalham afinados com o digital.

Quem mais responde ao jingle, diz ele, é quem se sente representado por aquela linguagem – não importa se o eleitor é de direita, esquerda ou centro. O interior sempre foi mais permeável à música política, mas hoje o fator decisivo não é o mapa geográfico, e sim o sotaque.

E para quem acha que o jingle é só musiquinha, eis uma última informação: o preço varia conforme uso, cargo em jogo, tempo de campanha, complexidade e risco estratégico. Traduzindo: não é só canção. É decisão eleitoral – com refrão, rima e cálculo político.

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