
Alguns dizem que, depois de se apaixonar pelo Rio de Janeiro, é inevitável escolher: ficar lá… ou permanecer em Minas Gerais. Como se fossem opostos.
Como se não coubessem no mesmo peito. Mas eu prefiro pensar diferente. Porque o carioca tem um jeito que encanta: leve, aberto, espontâneo. Vive o agora com intensidade, transforma o cotidiano em paisagem, encontra beleza até no improviso. O mar ensina isso — movimento, presença, liberdade que se revela. Já o mineiro carrega outro tempo: mais contido, mais profundo, mais atento. Não se entrega de imediato, mas quando entrega, é inteiro. As montanhas ensinam isso — permanência, silêncio, liberdade que se constrói por dentro.
O carioca se expressa. O mineiro interpreta.
Um ri alto, o outro sorri de canto. Um chega chegando, o outro chega ficando. Mas ambos — à sua maneira — sabem ser livres.
E talvez o segredo não esteja em escolher, mas em reconhecer que há encontros que ampliam quem a gente é. Porque existe, sim, uma mineiridade que aprende a olhar o horizonte do mar sem perder a profundidade das montanhas.
E existe um olhar carioca que, ao desacelerar, descobre o valor do silêncio mineiro. No fim, não é sobre lá ou aqui.
É sobre carregar dentro de si o melhor dos dois mundos: a leveza do Rio de Janeiro e a essência de Minas Gerais.
Porque quem aprende isso não se divide. Se expande.
*2026, Talysson Zebral (Rua Duduvier, Rio de Janeiro – RJ)*
Nota do autor:
Escrevi esta crônica na Rua Duvivier, onde tive minha primeira morada no Rio de Janeiro — um lugar que me marcou em muitos sentidos.
Ali, entre poucos quarteirões, a vida parecia acontecer com uma intensidade própria. No Bar Atalaia, o simpático Senhor Tião — já beirando os 85 anos — possuí no rosto um sorriso que parece conhecer todas as histórias daquela rua – ele conhece. Duvivier carrega memórias que atravessam a música brasileira. Por ali passaram nomes como Elis Regina, Baden Powell, Sérgio Mendes e Wilson Simonal, em tempos em que o talento ainda cabia nas esquinas.
Muito próximo dali, também ecoam histórias políticas — como o retorno de Leonel Brizola do exílio —, lembrando que a cidade nunca foi só paisagem, mas também palco de transformações.
Na esquina do cotidiano, meu ponto, o quiosque Areia MPB, onde a música encontrava o mar e a memória ganhava forma — com homenagens a Gilberto Gil e à sua filha, Preta Gil. Precisa apenas melhor a cachaça. Duvivier mudou minha vida.
Mesmo à sombra do imponente Copacabana Palace, eu fico com o que é simples, vivido e verdadeiro. Fico com a minha esquina.
Talysson Zebral é Administrador e Escritor



