
Dizem que, em Minas Gerais, se cercarmos qualquer cidade, ela vira circo. Se a cobrirmos, torna-se hospício. Humor à parte, a vida tem muito de circo e de hospício, no mundo inteiro. É uma pena que o humor esteja cada vez menor dentro dos hospícios em que transformamos nossas megalópoles, nas quais moramos sem as benesses do circo. Estamos virando loucos bravos.
Lembro-me, com saudade, dos loucos que povoaram minha infância. Todos com traços de bom humor, livres, leves e soltos no espaço de suas fantasias.
Um deles carregava seus pertences às costas, numa enorme bola feita com lençol encardido, qual um Atlas misturado com caramujo. Cada noite dormia num lugar diferente. Contava, com vivacidade, as histórias dos mares que atravessou, marinheiro destemido que era, enfrentando ciclones, vagalhões, naufrágios, seres fantásticos, gigantes, reis perversos. Mostrava a faca e os golpes usados para derrotar os canibais do Oceano Índico. Mudava os acontecimentos e as personagens ao sabor do vento, ou melhor, de acordo com o delírio do dia. Eu acreditava em todos os relatos, escutava-os com a respiração suspensa, sem desconfiar que o Marco Polo conterrâneo jamais saíra da cidade.
Havia uma pedinte que discursava para uma multidão invisível, enquanto circulava pelo centro, entusiasmada com o púlpito gratuito que a rua oferece. Ralhava com seus fantasmas, chamava-os aos brios, exibia-lhes o inseparável cajado de madeira. Um bando de meninos a seguia, divertindo-se com a oratória em ebulição, eu entre eles. Lá pelas tantas, começávamos a mexer com ela. Bastava chamá-la de Rita que se irritava e perdia o controle. Voltava-se contra nós, perseguia-nos com o cajado em riste, debandávamos. Era um duplo sucesso: Rita soltava gargalhadas, vangloriando-se de afugentar a pirralhada, e nós dávamos por cumprida a maldade do dia.
Meu preferido era um senhor muito culto e atencioso que, ao surtar, da janela de sua casa liberava, em chorrilho, aos gritos, todos os palavrões que a humanidade havia criado. A meninada se juntava para escutá-lo e oferecer-lhe incentivo para a memória. Ouvíamos, em estado de graça, os nomes que, se os pronunciássemos, as mães nos obrigariam a lavar a boca e a correr para o confessionário.
Certa vez o encontrei, em plena crise, imóvel, com os braços abertos, as mãos em concha viradas para cima. A posição atiçou minha curiosidade:
– O senhor está brincando de estátua?
A resposta foi uma carranca de desagrado. Insisti:
– O senhor está brincando de estátua?
Ele me repreendeu:
– Não vê, menino, que eu sou uma árvore e tem dois casais de canarinhos chocando nas pontas dos meus galhos? Some daqui, senão eles abandonam os ninhos, e os filhotes morrem.
Só hoje sei apreciar essa loucura que convivia em paz com toda a cidade, muito diferente da atual, nos grandes centros urbanos, enjaulada, violenta, sem limite quando explode. Ao menor desentendimento, vira ódio. E como tem gente que gosta do ódio.
Daí, também, minha saudade pelos loucos da infância. Eram como pequenos anjos que, ao baixarem à Terra, continuavam vivendo uma realidade diferente da nossa. Pairavam no ar, beija-flores do delírio, sem que desconfiássemos.
Sua loucura era bem doce. Tão doce que muita gente se refugiava na alienação, e só de vez em quando dava as caras para a crueldade deste mundo. E voltava depressa para lá.
Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti
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