Maioria absoluta no Oscar de Melhor Filme (por Maurício Romão)

Imagine uma eleição para prefeito em determinada cidade. O modelo de voto empregado é o de, [...]

Imagine uma eleição para prefeito em determinada cidade. O modelo de voto empregado é o de maioria simples: ganha o candidato que tiver mais votos, independentemente da quantidade de votos recebida. Este modelo é igual ao usado nos sistemas eleitorais majoritário-distritais para eleições parlamentares, como o do Reino Unido, por exemplo.

Suponha que há 10 candidatos. Na apuração dos votos válidos o candidato A logrou sair vencedor com 15% dos votos, numa eleição em que a votação foi bastante fragmentada. O candidato A foi eleito com o apoio de poucos e o desagrado de muitos, o que gera questionamentos sobre a legitimidade do seu mandato, visto que 85% dos votos dos munícipes foram desconsiderados (wasted votes) nesta eleição. Nada obstante seus méritos, A ganhou o pleito com a ajuda do mecanismo de voto, que privilegia o primeiro que chega na frente (first past the post), como numa corrida de cavalos, mesmo que com votação inexpressiva.

Uma possibilidade de tornar esse processo eleitoral mais inclusivo, mais agregativo, mais consensual, é mudar o sistema de voto de maioria simples para maioria absoluta: ganha o candidato que obtiver 50% mais um dos votos válidos. Neste sistema o eleito amealha mais consensos e terá mais legitimidade, pois tem suporte da maioria populacional.

Todo esse exórdio foi para dizer que estes dois modelos eleitorais, o de maioria simples e o de maioria absoluta, são exatamente os mesmos usados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS) americana na escolha dos ganhadores do Oscar.

Para todas as categorias (roteiro, fotografia, direção, atores etc.), exceto a de melhor filme, é empregado o sistema de maioria simples, já que a Academia entende serem essas categorias mais técnicas, mais artísticas, mais específicas, e que as desvantagens do modelo não comprometem a imagem institucional do conjunto da Academia. Controvérsias numa categoria técnica – e elas sempre ocorrem – causam danos marginais e custos reputacionais aceitáveis.

Entretanto, para a escolha de melhor filme a Academia é mais rigorosa e associa essa modalidade à sua própria imagem institucional. A repercussão midiática de uma má escolha, em termos de rejeição pública, tem impactos reputacionais devastadores. O objetivo então é evitar que um filme ganhe o Oscar sem ser do agrado de maior parcela dos componentes da Academia.

Daí ter adotado o mecanismo de maioria absoluta para a categoria considerada mais sensível, a de melhor filme, mediante o sistema de voto preferencial (ranked-choice voting), que também é conhecido como sistema de voto alternativo, voto ordenado, ou voto por classificação.

Pois bem, na sistemática de atribuição de votos, cada membro da Academia vota ordenando suas preferências pelos 10 filmes concorrentes: 1º voto para o filme tal, o mais preferido, 2º voto para o filme qual, o de segunda preferência, e assim por diante. Terminada a votação, passa-se à fase de apuração.

Se na primeira triagem de apuração dos votos algum filme alcançar mais de 50% dos votos como 1ª opção, quer dizer, atingir a maioria absoluta, a eleição é encerrada e o filme é declarado vencedor. Por exemplo, se forem 10.000 os membros-eleitores da Academia o filme vencedor precisaria ter mais e 5.000 votos como 1ª opção.

Se nenhum filme consegue ter maioria absoluta, então o processo eleitoral entra na intricada fase de redistribuição ou transferência de votos. O filme que obteve menos votos como 1ª opção é eliminado da competição e os votos que lhe foram destinados são redistribuídos entre os demais filmes, mas alocados pela 2ª opção dos eleitores do filme descartado: tantos para o filme X, tantos para o filme Y etc.

Se depois dessa rodada de transferência nenhum filme atingiu maioria absoluta, o processo se repete: o filme que está agora em 9º lugar como 1ª preferência dos eleitores é retirado da disputa e seus votos são redistribuídos para os 8 finalistas restantes e assim sucessivamente até que o filme vencedor atinja mais da metade dos votos totais, encerrando-se o processo eleitoral.

Nessa senda, pode ganhar a estatueta o filme que tiver maior aceitação geral, o que agregar mais preferências, ainda que eventualmente não tenha sido o mais votado desde o início, figurando, por exemplo, como 2ª ou 3ª opção nas ordenações dos votantes.

É assente na indústria cinematográfica que o sistema de voto ordenado promove uma representação mais justa das preferências coletivas dos membros-votantes da Academia. O que se espera agora é que essas preferências recaiam sobre “O Agente Secreto” como o melhor filme na premiação do Oscar deste ano!

*Artigo sendo publicado no Observatório ABRAPEL – Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais

Maurício Romão é Ph.D. em Economia pela Universidade de Illinois, Estados Unidos. Fundador e Coordenador do grupo “Pesquisas em Definitely” com a participação de Pesquisadores de Mercado e Opinião no Brasil.

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