Lições de sabiá (por Luis Giffoni)

Um casal de sabiás construiu o ninho na entrada da garagem de minha casa. Escolheram um lugar protegido da chuva, do vento, de [...]

Um casal de sabiás construiu o ninho na entrada da garagem de minha casa. Escolheram um lugar protegido da chuva, do vento, de olhares curiosos, atrás de uma trepadeira e da luminária que lhes oferece algum calor. Ninho cinco estrelas. Puseram até algodão para forrar os gravetos e os musgos. Com tanto conforto, a fêmea, mal se deita, puxa uma soneca. Assisti à dança de acasalamento da dupla, um balé com passos de tango, bicos abertos e canto agudo, quase assobio, namoro de tirar o fôlego. Paixão enlouquece as aves. Não apenas as aves.

O macho me acorda de madrugada, antes das seis, sem qualquer consideração pelo uso gratuito da casa e da maternidade. Fosse ele pagar as diárias, aí veria como custa caro ter filho. Gêmeos, então, nem se fala. Sim, são dois os filhotes. Agora que nasceram, ele solta a voz o dia inteiro, anunciando o orgulho da paternidade. De nada me adianta repetir que já sei, já sei que os rebentos são bonitos, lindos, saudáveis, que está de parabéns, ele não me dá a mínima e continua se esgoelando da manhã à tarde. Não tem desconfiômetro. Aliás, acho que o problema é generalizado. Pai exagera as virtudes das crias. São todas iguais, exceto as nossas, sempre especiais.

O sabiá anda agressivo, não comigo, mas com ele mesmo. Para treinar a defesa do ninho, ataca seu reflexo em minha janela. Investe com força contra a própria imagem, sujando o vidro e me pregando sustos. De repente, aquele estrondo de míssil no escritório. Não para por aí. Usa, também, o retrovisor de meu carro para a batalha autodestrutiva que um psiquiatra amigo afirma ser tendência suicida, opinião da qual discordo. A cada trombada, o sabiá desanda. Literalmente. O resultado é um escorrido esbranquiçado no espelho e na porta do automóvel que, por mais que eu remova, retorna a cada dia, cada vez mais corrosivo.

Os recém-nascidos me fizeram esquecer os problemas provocados pelo pai. Trouxeram-me uma alegria que custei a entender. Num mundo cheio de guerra, atentado, Trump, briga, ódio religioso, crise econômica, poluição, o que às vezes me dá a impressão de caos generalizado e deixa pouca margem para a esperança, eles me proporcionaram momentos de sutil felicidade: nem tudo vai mal. A natureza continua seu ritmo, segue a ordem instalada há milhões de anos, e as mazelas humanas ficam, em sua maioria, circunscritas a nós mesmos. Eu, que já cacei muito sabiá quando era menino, zelo pela sobrevivência dos bichinhos, atento aos gaviões que comeram os dois beija-flores nascidos no ipê defronte a minha casa.

A fragilidade dos filhotes me assusta. Ao mesmo tempo, constato que ela é a grande força que une os seres vivos. A vida é frágil e interdependente, e essa ciência, que só nós possuímos, exige nossa transformação. A Terra não pertence ao ser humano, como muita gente ainda acredita, mas a todas as espécies. Constatação básica, mil vezes repetida, simples de dizer, difícil de pôr em prática. O Agente Laranja que o diga.

Os dois irmãos logo voarão, como os bem-te-vis chocados no alto do poste em frente ao vizinho. Com eles, perpetua-se o canto do sabiá, renova-se o coro, até a vinda da próxima geração. Para gente ou ave, a vida, no fundo, no fundo, é a arte e a ciência de construir ninhos e criar filhotes. Uma arte e uma ciência que superam todas as outras e nos deixam cheios de orgulho.

Luis Giffoni é Escritor, Membro da Academia Mineira de Letras. Prêmio Jabuti

Luís Giffoni lançou recentemente o romance “Linha de Neve”, que aborda uma aventura nas montanhas dos Andes. Para a compra online: https://www.sineteeditora.com.br/linha-de-neve

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