Entre vielas escuras e edifícios colados uns aos outros, a Kowloon Walled City tornou-se um dos casos urbanos mais extraordinários do século 20. Sua origem, porém, era militar: no período imperial chinês, a área abrigava um posto defensivo costeiro que, no século XIX, foi reforçado pela dinastia Qing para proteger o litoral e afirmar presença estratégica na região.
Após as Guerras do Ópio e a expansão britânica em Hong Kong, a área murada permaneceu formalmente sob soberania chinesa, embora cercada por território britânico. Na prática, nem China nem Reino Unido exerceram controle pleno sobre o local ao longo do século XX, criando um prolongado vácuo jurídico e administrativo.
Foi nesse cenário que a antiga fortaleza se transformou. Depois da Segunda Guerra Mundial, refugiados passaram a ocupar o espaço, atraídos pela baixa fiscalização e pelo custo reduzido. Sem planejamento oficial, os prédios cresceram verticalmente, encostados uns aos outros.
Em apenas 0,026 km², viveram entre 33 mil e 50 mil pessoas antes da desocupação. A densidade estimada ultrapassava 1,5 milhão de habitantes por quilômetro quadrado, frequentemente citada como a mais alta já registrada em um assentamento urbano moderno.
A infraestrutura era improvisada: redes elétricas e hidráulicas informais, comércios e oficinas nos andares inferiores e moradias nos superiores, muitas vezes com pouca luz solar. Ainda assim, desenvolveu-se uma rede comunitária própria.
Em 1987, britânicos e chineses anunciaram a demolição. A área foi desocupada no início dos anos 1990 e demolida em 1993. Hoje, o local abriga um parque público.



