JK: Belo Horizonte como inspiração de Brasília (por Carlos Alberto Teixeira de Oliveira)

Aproveito, Neste 21 de abril de 2026, as comemorações dos 66 anos da inauguração de Brasília, para resgatar discurso do presidente Juscelino Kubitschekvde Oliveira, proferido durante as [...]

Aproveito, Neste 21 de abril de 2026, as comemorações dos 66 anos da
inauguração de Brasília, para resgatar discurso do presidente Juscelino Kubitschek
de Oliveira, proferido durante as comemorações do sexagésimo aniversário da
fundação de Belo Horizonte – MG – ocorridas em 12 de dezembro de 1957. O
referido texto foi extraído do livro intitulado “JK: Doutor em Desenvolvimento – Um
Mineiro à Frente de seu Tempo”, de minha autoria e publicado pela Newsletter
MercadoComum.

Vale salientar que, neste ano, duas datas significativas se destacam: os 70
anos da posse de JK na Presidência da República em 31 de janeiro de 1956 e os 50
anos de sua morte em um controverso acidente automobilístico, em 22 de agosto de

  1. Acrescentaria, antes de iniciar o texto, uma declaração do próprio JK
    justificando o início da construção de Brasília:

“A fundação de Brasília é um ato político cujo alcance não pode ser ignorado
por ninguém. É a marcha para o interior em sua plenitude. É a completa consumação da
posse da terra. Vamos erguer no coração do nosso país um poderoso centro de irradiação
de vida e de progresso. Sei e medi todas as consequências dessa mudança da Capital.
Não desconheço que acrescentei esforços e canseiras maiores aos duros trabalhos que
pesam sobre os ombros do governo. Mas era preciso dar o passo decisivo. E o passo
decisivo foi dado. Não se iluda ninguém: a Constituição será cumprida em benefício de
todos, do país e deste Rio de Janeiro, que nada sofrerá com a mudança, ao contrário,
porque não é por ser Capital da República que se expandiu esta cidade, hoje com raízes
tão profundas, e que continuará cada vez mais forte e mais bela.”

Eis, a seguir, a íntegra do seu discurso naquela oportunidade:

“Que me seja, pois, permitido dizer a esta cidade (Belo Horizonte) – no dia dos seus
verdes sessenta anos — o quanto lhe sou obrigado.
Não me teria sido possível falar-vos esta noite, na qualidade e com as
responsabilidades de chefe da nação, se não se tivessem aberto, em dia longínquo, as portas
e os corações desta nossa jovem capital para um certo e pobre menino que, nas fronteiras
da adolescência, aqui aportou, vindo de Diamantina, para a ambiciosa conquista de um lugar
ao sol.

“Em Belo Horizonte, desarmado e só, enfrentei a pobreza e a inexperiência; aqui me
empenhei nas primeiras lutas pela subsistência; aqui tomou forma a minha vida e se
possibilitou a minha carreira; aqui estabeleci as raízes de alguns dos meus afetos mais
sólidos; aqui aprendi muitas coisas, e a primeira de todas elas, que é a crença no Brasil. Devo
a Belo Horizonte, em grande parte, a minha convicção inabalável, a minha certeza no futuro
do Brasil, na possibilidade de se fazer deste nosso país um dos maiores emais vigorosos
países do mundo.

“O viajante pouco mais que menino, deslumbrado e curioso, que aqui chegou sem
amparo há quase quarenta anos e que é o mesmo homem maduro que vos fala neste
instante, e a quem os desígnios da Providência elevaram à presidência da República, este,
além do muito mais, que não tem conta, deve à nossa bela e próspera capital a lição, a graça
admirável e histórica de ter assistido ao processo do acelerado crescimento de uma cidade.
Quem visita, pela primeira vez, Belo Horizonte se surpreendente com o milagre de
seu desenvolvimento em prazo tão pouco dilatado. Ainda estão vivos alguns dos que
assistiram à instalação do primeiro governo do nosso Estado, na cidade nova em folha, e eis
que já tudo se agigantou e se avolumou, e, nestas largas avenidas e ruas, se movem seres
que aqui mesmo abriram os olhos pela primeira vez à luz deste céu incomparável, e outros
numerosos que vieram de todas as regiões do Brasil e do estrangeiro para colaborar
conosco neste processo constante, de que não só os mineiros, mas todos os brasileiros, por
tantos títulos, se orgulham.

“Aos que duvidam de nossa pátria, aos que põem reticências à sua expansão, não há
melhor resposta do que esta: de um sítio deserto e inóspito, em seis décadas, fez-se a
metrópole moderna e estuante de vida, que agora vemos — grande empório dos sertões,
com a sua pujante indústria a criar novas fontes de riqueza, seu diligente comércio a
estender tentáculos por todas as direções, sua vida universitária, tão rica, a semear e a
colher, em todos os campos da cultura — cidade admirável, para cujo florescimento se diria
que o homem de estudos, o artista, o chefe de empresa, o trabalhador, em nobre emulação,
se empenham desveladamente, cada qual porfiando em lhe dar o melhor do que têm, para
fazê-la mais sua.

“Em meio aos árduos trabalhos e penas por que tenho passado na vida pública, alivia
me, como um lenitivo, o pensamento de que, ombro a ombro convosco, pude esforçar-me,
pude fazer algo por esta jovem metrópole. Procurando, como prefeito, continuar a obra dos
meus ilustres antecessores, alguns dos quais tenho a satisfação de ver aqui presentes, não
me poupei esforços para torná-la mais bela, a fim de que mais vos pudésseis orgulhar do
seu nome, e mais confortável, a fim de que assegurasse aos seus operosos habitantes as
comodidades que são a justa remuneração do esforço humano. Vi, com júbilo, que, mercê
desse admirável espírito de continuidade, que é apanágio dos homens de Minas, os que me
sucederam também não cessaram de engrandecê-la, não cessaram de acumulá-la de novos
atrativos e de novos benefícios.

“Como governador, diligenciei porque se multiplicassem as suas indústrias,
suscitando novos e arrojados empreendimentos, como a Mannessmann, e pondo à
disposição dos homens de empresa centenas de milhares de quilowatts de que
necessitavam para as suas iniciativas. Ligações rodoviárias essenciais se abriram para
permitir a expansão do grande centro fabril, do grande núcleo comercial que se criava no
coração mesmo de Minas.

“Finalmente, alçado à suprema magistratura da nação, não me dei por quite, não me
senti desobrigado para com Belo Horizonte. Faltava completar a sua integração no poderoso
triângulo industrial, do Centro-Sul do País, eixo em torno do qual gira o melhor da produção
brasileira. Acelerei a construção da nova rodovia que nos dá acesso ao Rio, pude inaugurá
la, ao término do meu primeiro ano de governo, e mandei atacar celeremente o grande
caminho de São Paulo — a rodovia Fernão Dias — sem me descuidar de outra estrada de
capital importância — a que vos liga a Vitória. Esses esforços, no setor rodoviário, terão
como remate a ligação desta cidade com Brasília, e sabeis o que significa, para Belo
Horizonte, estar a meio caminho de Brasília ao Rio, a meio caminho de Brasília a São Paulo,
a meio caminho de Brasília a Vitória, a meio caminho de Brasília a Salvador.

“Mas, como sabeis, não tenho cuidado só de estradas. Outros aspectos da economia
mineira ocupam, por igual, a minha atenção e o meu esforço. Dentro em pouco, graças à
cooperação do Governo Federal com a administração mineira, o potencial de Três Marias
será trazido às vossas portas; 520.000 quilowatts estarão a serviço do Centro e do Norte de
Minas, a estimular novas indústrias. Quero anunciar-vos, a esse propósito, que Minas Gerais
não ficará à margem da indústria automobilística. Dependendo apenas de entendimentos
complementares, com relação a exigências legais e financeiras, o projeto dá Simca poderá
ser posto em execução dentro em breve. E fabricareis também automóveis, participareis
também dessa indústria de tamanha repercussão em nossa economia.

“Com essas realizações, com o apoio que o meu governo vem dando à execução do
programa elétrico regional a cargo da Cemig; com a criação da Usiminas, em colaboração
com o governo do Estado; com as obras do reforço ao abastecimento d’água de Belo
Horizonte, que estarão prontas dentro de dois anos e suprirão as necessidades de sua
população até quando atinja dois milhões de habitantes; com a solicitude com que vem o
meu governo cooperando com o honrado e esclarecido governo Bias Fortes – incansável na
defesa dos interesses de Minas — creio que posso dizer, nesta assembleia, de família, que
continuo fiel a Belo Horizonte, que continuo a dar-lhe o melhor da minha energia, o melhor
da minha simpatia, o melhor da minha devoção.

“Convosco estarei sempre a pelejar para que esta cidade, já grande, já poderosa,
conheça dias ainda de maior esplendor e riqueza.

“Na vossa ambição de progresso, na vossa lição de pioneirismo, na desmedida
audácia daqueles que criavam esta cidade, o Brasil está-se inspirando para edificar Brasília.

“Se nós mineiros fizemos, construímos em tempo mínimo Belo Horizonte — por que
do esforço, da tenacidade do Brasil inteiro não poderá nascer Brasília?
Ufano-me de que tenha cabido a um homem desta região a oportunidade de
concretizar esta velha aspiração pioneira, da mudança da capital para o seu lugar exato, que
significa uma acertada medida de defesa do Brasil, de posse integral do Brasil, de conquista
efetiva de uma das zonas mais admiráveis e fecundas de nosso imenso território.

“A ideia de Belo Horizonte teve os seus inimigos, os seus detratores, os seus velhos
do Restelo a protestar contra a ousadia, que tão temerária lhes parecia. Que é feito deles,
que é feito dos argumentos especiosos, das observações maliciosas tendentes a
desencorajar a fundação de nossa cidade? Amanhã, todos os que se erguem contra a nova
capital da República também serão confundidos, emudecerão em face da pujante realidade.
Não há obra fecunda que não conheça o combate, a negação, o repúdio dos que preferem
assistir aos fracassos do esforço alheio a assumir o dever de trabalhar, de lutar pelo bem
comum.

“Prometo neste dia de hoje — e mais uma vez o faço — não esmorecer, não me deixar
envolver pela onda de desânimos com que uns poucos procuram em vão destruir-me o
ânimo. Prometo pelo Brasil, pelas gerações de amanhã, prometo pelo amor jamais
desmentido que vos tenho, Belo Horizonte, que nada me fará diminuir o ritmo deste
trabalho que estamos executando e que trará consequências benéficas imensas a nós todos,
à nossa pátria. O meu programa realista de metas será cumprido até o fim e já está
avançando a sua realização, para melancolia dos céticos, mas para o júbilo dos homens de
boa vontade e de boa-fé.

“Já sofri e já trabalhei demais para desistir dos meus propósitos de proporcionar ao
nosso país a sua recuperação e ativar o surto, infelizmente retardado, de seu progresso.
Vereis que, com o tempo, muitas coisas serão aclaradas e serão melhor compreendidas.
Trabalhar pelo Brasil recompensa. Sou um homem de fé e homem de fé o serei até à morte,
aconteça o que acontecer, por mais que conjurem e se congreguem as forças negativas, que
estamos acuando e perseguindo com destemor e simplicidade, movidos pelo amor à nossa
terra.

“As grandes cidades são obras de Deus. O esforço benemérito do homem que constrói
é presidido pela vontade divina. Não há grande cidade que não obedeça a uma inspiração
que vem do Alto. Nosso desenvolvimento é uma bênção divina. Disso não nos devemos
esquecer. Como as árvores, as culturas nos campos, as cidades crescem vivificadas e
aquecidas pelo sol do Eterno. Que Deus proteja e vele por esta minha cidade — bem minha,
permiti-me que vos diga — porque me acolheu e me amparou sempre, bem minha pelo
amor que lhe dedico”.

Carlos Alberto Teixeira de Oliveira é Administrador, Economista e Bacharel em Ciências Contábeis, com cursos de pós graduação no Brasil e exterior. Foi CEO do Safra National Bank of New York, Presidente do BDMG-Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais e do Banco de Crédito Real de Minas Gerais, Secretário de Planejamento, Mineração e Energia do Governo de Minas Gerais. Foi Reitor do Centro Universitário Estácio de Sá de Belo Horizonte. Atualmente é Coordenador Geral do Fórum JK, Presidente da ASSEMG-Associação dos Economistas de Minas Gerais, e Presidente/Editor do MercadoComum. Autor de vários livros, e da coletânea “Juscelino Kubitschek: Profeta do Desenvolvimento”.

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