Humanidade: do crepúsculo à aurora (por Eduardo Fernandez Silva)

Toda espécie que encontra um ambiente favorável se multiplica, até que o consequente adensamento ultrapassa a capacidade de suporte e degrada o meio. Este, deteriorado, torna-se [...]

Toda espécie que encontra um ambiente favorável se multiplica, até que o consequente adensamento ultrapassa a capacidade de suporte e degrada o meio. Este, deteriorado, torna-se incapaz de suster a espécie, que é então reduzida a poucos indivíduos, cedendo lugar a outras linhagens. Fora a esperança, não há razão para crer que com o animal humano seja diferente: maior densidade acirra a competição e a violência, como ilustram guerras recentes. Além disso, a ideologia de sempre crescer, de ampliar continuamente a pletora de bens a usar e descartar, ajudada por potentes instrumentos, inclusive a bomba atômica, prenunciam não um futuro auspicioso, mas sim tenebroso. É possível evitar essa sina, que para muitos decorre de uma lei geral do universo?

Quais valores, objetivos e práticas mudar para que nossas próximas gerações não sejam as derradeiras, e possam viver de maneira não degradada, com qualidade de vida e recompondo a capacidade de suporte do meio?

Estudos, e a experiência, indicam que o envelhecimento do indivíduo traz consigo mudanças de prioridades, objetivos e valores. Para maiores de 60 anos, isso é incontestável; também os mais jovens terão notado que seus desejos já não são os da adolescência. Poderiam mudanças análogas ocorrer no plano da coletividade, já que, sem trilhar novos rumos, o aniquilamento de elevada proporção da espécie é cada vez mais provável, como evidenciado pelo crescimento de danos e mortes de humanos devidas à redução da capacidade de suporte do meio? 

Os tecno otimistas dirão que novas tecnologias reverterão essas tendências, citando talvez o potencial da IA em elevar a produtividade e, pois, tornar mais acessíveis os produtos em geral. No entanto, este tipo de aumento da produtividade, medido pela quantidade de produtos produzidos por hora ou dólar aplicado, agrava o problema; na atual fase crepuscular, a produtividade que precisa se elevar é aquela que, a um só tempo, melhore as condições de vida dos mais carentes e reduza a pegada ecológica. Com seu imenso apetite por energia, a IA passa longe de contribuir nesse sentido. Ademais, seu desenvolvimento não se orienta pela busca desse tipo de produtividade hoje necessário, mas sim pelo objetivo de transformar milionários em bilionários, outra forma de agravar as pressões crepusculares.

Se na coletividade a questão é difícil, no plano individual, conforme a ideia da gerotranscendência, de Lars Tornstam, a aproximação do ocaso tornaria os idosos menos materialistas, menos ligados a status, dinheiro e “sucesso”, valorizando mais a qualidade do contato com outros, com a natureza, com a fruição da vida, com mais empatia e compaixão. Essas mudanças levam a melhor qualidade de vida e são facilitadas pela religião ou ideologia. Porém, ideologia e religião dificultarão tal mudança se valorizarem o ter sobre o ser, o indivíduo sobre o coletivo, a ganância sobre saciedade.

Apesar de a sociedade humana ser governada por idosos, seus dirigentes não têm dado sinais dessas transformações. Pelo contrário, viciados numa vida de alpinismo social e político, de defesa de interesses que levam ao esgotamento da capacidade de suporte, presos a uma ideologia que desvaloriza a cooperação e o coletivo, em prol da concorrência e do egoísmo, eles continuam nos conduzindo à extinção funcional, ou seja, a manter o comportamento autodestrutivo da espécie. Como redirecionar os caminhos coletivos?

A tendência de, ao aproximar o anoitecer, substituir objetivos imediatistas por mais cooperação, fruição da vida, da natureza, cultivar empatia e compaixão com todos, em especial os do quintil inferior, nos indica para onde apontar a bússola. Se os meios para lograr tal redirecionamento não estão claros, ao menos já sabemos a direção em que devemos caminhar. Temos, cada um de nós, de dar os primeiros passos, a cada dia, a cada hora, em busca de superar o crepúsculo, contemplar o alvorecer e usufruir o dia, todos juntos!

Eduardo Fernandez Silva é Mestre em Economia pelo Institute for Social Studies da Universidade de Hague. Foi Diretor da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados. Autor.

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