Fragmentação global e o retorno da política de interesses (por Filipe Colaço)

Alianças condicionais, multi-alinhamento e o novo tabuleiro internacional [...]


Alianças condicionais, multi-alinhamento e o novo tabuleiro internacional

Janeiro e fevereiro de 2026 não produziram um colapso da ordem internacional, mas sim algo mais complexo. Consolidaram a transição para um sistema em que as alianças deixaram de ser garantias e passaram a ser instrumentos. Não se trata de uma nova Guerra Fria clássica, nem do desmantelamento abrupto das instituições que moldaram o pós-Guerra Fria. O que emerge é algo mais difuso e potencialmente mais instável: uma arquitetura de poder fragmentada, transacional e cada vez menos previsível.

O nosso mundo em 2026 não caminha para novos blocos ideológicos. Aparenta evoluir para uma configuração em que os interesses são renegociados continuamente, os compromissos tornam-se condicionais e o poder volta a ser exercido de forma explícita. A ideia de um “Ocidente unido”, que durante décadas constituiu um pilar implícito da estabilidade global, encontra-se sob tensão estrutural.

O segundo mandato de Donald Trump acelerou essa mudança. As fricções entre os Estados Unidos e seus aliados históricos deixaram de ser apenas diplomáticas. A ameaça de tarifas sobre parceiros tradicionais revelou uma lógica clara: alianças passam a ser instrumentos táticos, e não compromissos estratégicos permanentes. O episódio da Groenlândia tornou-se emblemático desse novo momento. A pressão norte-americana para expandir presença militar e influência sobre o território, formalmente dinamarquês, foi interpretada por países europeus e, pelo próprio Canadá, como uma violação direta da soberania regional. Mais do que a disputa territorial em si, o caso simboliza uma inflexão mais profunda: a segurança coletiva cede espaço à negociação de força.

O Reino Unido que permanecia num limbo estratégico, tentando preservar a chamada “relação especial” com Washington sem se afastar da arquitetura de segurança europeia, parece estar a pender para o seu enquadramento europeu. O Canadá, por sua vez, busca diversificar parcerias e reduzir sua dependência dos Estados Unidos, dado o contexto de maior imprevisibilidade no eixo transatlântico.

A OTAN vive uma crise de credibilidade mais do que uma ruptura formal. Na Conferência de Segurança de Munique, os Estados Unidos procuraram reafirmar o vínculo transatlântico, mas a mensagem não eliminou a percepção europeia de incerteza estratégica. O resultado prático tem sido a aceleração de um pilar europeu de defesa – não necessariamente fora da OTAN, mas menos dependente de garantias políticas voláteis. A discussão sobre rearmamento e dissuasão ganhou um novo patamar. Conversas entre líderes europeus sobre fortalecimento da base industrial de defesa e maior autonomia estratégica indicam que a Europa passou da retórica para a reorganização estrutural de suas capacidades.

Esse reposicionamento do Norte Global altera profundamente o posicionamento estratégico de países como o Brasil, que passam a operar num sistema menos previsível, mas também menos hierárquico. É nesse contexto que o Sul Global encontra uma janela rara de manobra estratégica. Países como Brasil, Índia e Indonésia evitam alinhamentos automáticos. O que emerge não é neutralidade, mas multi-alinhamento pragmático, baseado na maximização de interesses e na diversificação de parceiros.

A reativação do acordo entre o Mercosul e a União Europeia ilustra bem esse pragmatismo emergente. Mais do que um tratado comercial clássico, o acordo reflete a necessidade europeia de garantir acesso a mercados, alimentos, energia e matérias-primas num ambiente de maior incerteza estratégica, ao mesmo tempo em que países do Mercosul ampliam sua margem de negociação em um sistema menos centrado em um único polo. O aprofundamento das negociações entre a União Europeia e a Índia segue a mesma lógica. A Europa busca reduzir dependências excessivas em cadeias de valor críticas, enquanto a Índia reforça sua posição como parceiro alternativo em indústria, tecnologia e manufatura avançada, sem se alinhar plenamente a nenhum bloco geopolítico. Na prática, o multi-alinhamento significa cooperar com a China em infraestrutura e tecnologia, dialogar com a Europa sobre padrões ambientais e sustentabilidade e manter canais seletivos com os Estados Unidos para investimentos financeiros e acesso a mercados. O alinhamento deixa de ser ideológico e passa a ser funcional.

Para países com longa experiência em navegar entre centros de poder, essa fragmentação não representa apenas risco, mas margem de manobra. A geopolítica dos minerais críticos reforça essa posição. Lítio, terras raras, cobre e outros insumos essenciais à transição energética concentram-se maioritariamente no Sul Global. A corrida por esses recursos, confere a esses países um poder de negociação sem precedentes nas últimas décadas.

Outro vetor estrutural dessa transição é a fragmentação financeira. O uso recorrente do dólar e do sistema financeiro internacional como instrumento para sanções acelerou a busca por alternativas. Sistemas de pagamento paralelos, acordos comerciais em moedas locais e novas arquiteturas financeiras ganham tração. Não se trata ainda do fim da hegemonia do dólar, mas do início de uma ordem econômica mais bifurcada, em que eficiência cede espaço à resiliência e à soberania operacional. A previsibilidade do sistema é substituída por diversificação e cálculo estratégico.

Para o Brasil, esse novo mundo apresenta riscos evidentes, mas também oportunidades estratégicas raras. Em vez de escolher lados, o país pode (e deve) escolher interesses. Energia, agronegócio, minerais críticos, indústria verde e diplomacia climática tornam-se ativos centrais de um sistema internacional mais transacional. Neste cenário em que alianças são menos estáveis e negociações mais duras, países capazes de dialogar com múltiplos polos, preservar autonomia e oferecer soluções concretas ganham relevância. O Brasil tem, talvez como poucas vezes na sua história recente, a oportunidade de converter ambiguidade geopolítica em protagonismo estratégico.

Neste mundo cada vez menos unido, o poder deixa de ser herdado e volta a ser negociado. A diferença é que, desta vez, mais países têm algo a negociar.

Filipe Colaço é Engenheiro Civil pela Universidade Nova de Lisboa, MBA pela Henley Business School, Inglaterra, e Sócio de Consulting Services EY Angola. Tem 18 anos de experiência em companias multinacionais, como a Deloitte e Boston Consulting Group, com experiência em projetos em Energia, Agronegócios, Mineração, Construção e Sector Público

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